HOME | ACERCA | NACIONAL | LOCAL | MUNDIAL | DOCUMENTOS | CONTACTOS | ANTERIORES

MUNDIAL

Como o bloqueio dos EUA contra a Venezuela impõe desafios à recuperação da tragédia humanitária

Por André Lucena
Brasil de Fato
1.jul.2026

Na Venezuela, os mortos pelos terremotos históricos da última quarta-feira (24) já são contados aos milhares. São 1.943, segundo o dado mais recente confirmado pelo presidente da Assembleia Nacional do país, Jorge Rodríguez. O número de feridos já superou os 10 mil, enquanto os desaparecidos podem chegar a cerca de 50 mil, segundo projeções da Organização das Nações Unidas (ONU).

Na história recente do país vizinho, nenhuma outra tragédia teve tamanha magnitude. Nas ruas da capital, Caracas, e em lugares como La Guaira — onde o Brasil chegou a montar uma unidade hospitalar para auxiliar nos atendimentos —, a solidariedade divide espaço com o clima de consternação.

Uma semana depois dos dois terremotos de magnitudes 7,5 e 7,2, as respostas são apenas provisórias. Não é difícil imaginar que, apesar do esforço do governo e da ajuda internacional, leve anos para que alguns desaparecidos venham a ser encontrados, conforme reconhece a ONU, e para a reconstrução da estrutura.

Tudo isso já seria especialmente difícil pela tragédia em si. Mas, no caso da Venezuela, o problema é ainda maior: há anos o país é assolado por sanções que sufocam a economia, conhecidas como Medidas Coercitivas Unilaterais. Como a manutenção do bloqueio dos Estados Unidos, que já afeta a estrutura venezuelana, causa ainda mais transtornos neste momento de crise incomparável?

Para Laura Capote, da Secretaria Operativa Continental da ALBA Movimentos, “apesar de que as diferentes forças de resgate e emergência da Venezuela estejam atuando para garantir que a maior quantidade de pessoas possa sair com vida, o povo venezuelano teria melhores condições”, se não fossem as sanções.

“As eventuais deteriorações, em termos de capacidade de resposta, são consequências de um bloqueio que se intensificou contra o povo venezuelano, em particular, e se aprofundou desde o sequestro do presidente Nicolás Maduro“, explica Capote.

Para ela, os sinais de solidariedade vindos dos Estados Unidos têm um viés de hipocrisia. “Há seis meses, o que os Estados Unidos estavam fazendo era bombardear a cidade de Caracas, sem se importar que as pessoas morriam em meio aos ataques”, diz.

As sanções contra a Venezuela
Logo após os terremotos, o governo Donald Trump anunciou que iria suspender por quatro meses as sanções econômicas contra o país sul-americano. Ainda assim, a medida se limita “às transações relacionadas às operações de socorro às vítimas”, segundo Washington. Na prática, o mecanismo vai permitir o processamento e a transferência de valores para ou da Venezuela. A decisão inclui a criação de um fundo de US$ 150 milhões para apoiar organizações humanitárias internacionais.

A União Europeia (UE), porém, não quis ouvir falar em desbloqueio. Preferiu separar as coisas. Na última sexta-feira (26), o bloco europeu decidiu ajudar a atenuar os efeitos dos terremotos, mas manteve as sanções. Países-membros já estão enviando ajuda humanitária, enquanto o serviço Copernicus foi ativado para mapear desastres. “Trata-se de algo à parte de qualquer outra questão e de qualquer outra política”, resumiu a porta-voz da Comissão Europeia, Paula Pinho.

Os Estados Unidos aplicam uma farta lista de sanções à Venezuela desde 2006. Naquele ano, o governo George W. Bush proibiu a venda de armas e material militar de fabricação estadunidense ao país governado por Hugo Chávez. O argumento era que Caracas não cooperava na luta contra o terrorismo.

Anos depois, já sob o primeiro governo Trump, Washington passou a sancionar financeiramente nomes ligados ao governo venezuelano. Nesse ínterim, a gestão de Barack Obama passou a categorizar a Venezuela como “ameaça à segurança nacional”, ordenando o congelamento de bens e contas bancárias de membros do governo venezuelano.

A primeira reeleição de Maduro, em 2018, fez Washington endurecer as sanções: ativos do governo venezuelano sob jurisdição dos EUA ficaram congelados, enquanto a petrolífera PDVSA e o Banco Central passaram a ser sancionados. O ex-presidente Joe Biden chegou a suavizar as medidas, na tentativa de compensar as perdas na importação de petróleo pelos EUA no contexto da guerra na Ucrânia. De volta ao poder, Trump pôs fim às licenças concedidas a petroleiras internacionais para operar na Venezuela, buscando isolar de vez o governo venezuelano.

Para se ter uma ideia do tamanho do prejuízo, um levantamento da Global South Insights e do Instituto Tricontinental, com base em pesquisa do atuário venezuelano Yosmer Arellán, estima que, com as sanções, o país sul-americano perdeu receitas petrolíferas equivalentes a 213% do seu PIB entre janeiro de 2017 e dezembro de 2024. O prejuízo chegou a um total de US$ 226 bilhões. A escolha do petróleo venezuelano como alvo principal não foi à toa: até 2017, a receita do petróleo correspondia a 95% dos ganhos com exportação do país vizinho.

Com a restrição nas exportações, a receita do Estado venezuelano se viu à míngua. Some-se a isso a limitação às importações, em um aperto de cerco que deteriora a capacidade de Caracas de agir em situações de normalidade. Em um contexto de crise humanitária como o atual, o poder de resposta às emergências se vê quase esgotado.

Mark Weisbrot, economista e co-diretor do Centro de Pesquisa Econômica e Política, explica que uma consequência direta das sanções tem a ver com o fato de que os bancos costumam recusar ou atrasar transações para a Venezuela, mesmo aquelas que, porventura, tenham sido autorizadas. As instituições financeiras evitam correr o risco de novas sanções.

“O Government Accountability Office [órgão de fiscalização] dos Estados Unidos constatou que até mesmo organizações humanitárias enfrentavam todo tipo de dificuldade para atuar na Venezuela por causa das sanções”, assevera Weisbrot, em conversa com o Brasil de Fato.

“Não há tantos hospitais, clínicas, sistemas de água e saneamento funcionando. Não há tanto combustível disponível, nem equipamentos pesados ou peças de reposição. E grande parte da força de trabalho profissional, incluindo a da saúde, deixou o país”, explica o economista.

Domínio imperalista
As sanções unilaterais dos Estados Unidos formam uma das ferramentas mais poderosas da política externa estadunidense. O domínio sobre os recursos que deveriam ir a outros países implica em consequências sociais graves.

“No primeiro ano das sanções de Trump, entre 2017 e 2018, houve um aumento de 40 mil mortes, muito provavelmente atribuível às sanções, porque a economia naquele momento estava melhorando e não havia outra razão para isso. E provavelmente centenas de milhares de pessoas morreram como resultado dessas sanções”, aponta Mark Weisbrot.

Alguns números apontam a dimensão dos valores congelados, que estão em várias partes do mundo. “O Banco da Inglaterra tem cerca de US$ 4 bilhões em ouro que deveriam ser devolvidos à Venezuela. O FMI emite o que se chama de Direitos Especiais de Saque (SDRs), que podem ser convertidos em dinheiro. E a Venezuela tem cerca de US$ 5 bilhões nisso no Fundo Monetário Internacional, e deveria ter acesso a esses recursos”, pondera o economista.

Segundo Weisbrot, não há razão para manter as sanções. “Elas são ilegais, evidentemente, e têm sido desde o começo, especialmente desde 2015, e mesmo antes disso. São completamente ilegais sob o direito internacional e sob tratados que assinamos, incluindo a Carta da Organização dos Estados Americanos”, denuncia.

Como prestar atendimento?
Em 2021, a relatora especial da ONU, Alena Douhan, visitou a Venezuela e expôs o efeito devastador das sanções no campo da saúde. Só em 2020, plena pandemia, as sanções impediram a compra de reagentes sanguíneos para 2,5 milhões de pacientes. Cerca de 180 mil operações cirúrgicas não puderam ser feitas por mera falta de antibióticos e anestésicos. Apenas 20% dos equipamentos hospitalares estavam em condição de funcionamento, uma vez que a Venezuela experimentava dificuldades para adquirir peças de reposição.

A UE, por sua vez, aplica sanções à Venezuela desde novembro de 2017. As medidas incluem embargo a armas e equipamentos para repressão, assim como imposição de proibição de viagens e congelamento de bens de indivíduos.

Os terremotos da semana passada aconteceram em um momento especialmente crítico. Mesmo que o Ministério da Saúde venezuelano tenha ativado uma rede de oito hospitais públicos na região metropolitana de Caracas, além de clínicas privadas, as sanções contribuíram e seguem contribuindo para um estado próximo ao colapso. Pouco antes, em maio, a Federação Médica Venezuelana (FMV) apontou que 90% dos hospitais do país estavam desabastecidos ou abandonados. Com problemas de abastecimento, não é raro que pacientes levem seus próprios suprimentos médicos. Caso possuam.

O horizonte na Venezuela, entre as ruínas, é difícil de ser visto. O governo Delcy Rodríguez reconhece a importância da ajuda internacional. Mas não é de se descartar o risco da “possibilidade de que o terremoto seja usado como justificativa para a chegada de intervenção estrangeira”, segundo Laura Capote. “Essa é uma preocupação de primeira ordem, ao menos para estar em atenção”, aponta.

Weisbrot, por sua vez, reconhece que o alívio momentâneo é importante e sustenta que este deveria ser o momento para pôr um fim definitivo às medidas unilaterais de Washington. “No Congresso estadunidense e no Progressive Caucus [a ala mais à esquerda dos congressistas do Partido Democrata] tem havido um movimento crescente de oposição à imposição dessas sanções mortais e ilegais. À medida que o mundo se torna mais multipolar, haverá mais resistência a isso”, aponta Weisbrot.

A expectativa é que os problemas sejam amenizados, mas o estrangulamento de décadas da economia local, somado à tragédia histórica, cobra um preço inestimável.