MUNDIALBRASIL: COP30 O fracasso da COP30 e a importante expressão da luta indígenaPor Leandro Lanfredi & Matheus Correia
Esquerda Diário
28 de Novembro de 2025
As duas imagens que percorreram o mundo e que marcaram a COP30 em Belém foram a revolta dos povos indígenas, entrando na Blue Zone para exigir voz, e o incêndio ao final. Como se fosse a revolta da própria floresta invadindo os salões dominados por lobistas do petróleo e da mineração e pelos políticos do grande capital.
Lula havia anunciado, ao lado de Marina Silva e Sônia Guajajara, objetivos grandiosos para a COP em Belém. Seria a COP da implementação de um mapa do caminho para sair dos combustíveis fósseis, que não ficaria nos discursos, uma COP dos povos da floresta em Belém. Enquanto pintava de verde seus discursos, o governo, às vésperas da COP, anunciou a autorização da exploração de petróleo na bacia da Foz do Amazonas e promulgou o Decreto nº 12.600/2025, privatizando os rios Tapajós, Madeira e Tocantins. Poucas vezes as palavras foram tão distantes dos atos.
O relatório final expôs a realidade de uma COP condicionada pelos lobbies das mineradoras, das petroleiras (que superaram em número todas as delegações dos países excetuando o Brasil) e do agronegócio, que teve inclusive uma zona própria, a Agrizone. Nenhum compromisso de redução de emissões dos gases de efeito estufa, nenhuma meta de controle do aquecimento global, nenhum compromisso com o fim do desmatamento. O tão falado “Fundo das Florestas” promovido pelo governo brasileiro arrecadou magros 7 bilhões de dólares, em contraste com os 25 bi esperados de arrecadação ao fim da COP. A COP mostra de forma eloquente como o único verde com o qual as corporações e governos se importam é o do dólar. Essas conferências fundavam-se na promessa utópica de que governos e empresas capitalistas iriam, voluntariamente, reduzir suas emissões. Essa premissa, em tempos mais turbulentos da situação internacional como os que vivemos, mostra-se ainda mais sem lugar.
A novidade que trouxe o relatório da COP30 foram metas de adaptação climática e promessas de ajuda financeira em nome da “justiça social”. Mais uma demonstração da falência do capitalismo verde. Depois de descumprir suas próprias metas, de anunciar o embranquecimento de 80% dos corais e de assumir ao mundo que a barreira dos 1,5 ºC graus de aquecimento vai ser ultrapassada definitivamente em breve, as grandes potências, através da ONU, agora falam que a humanidade precisa se adaptar ao inevitável e querem nos impor o seu roteiro de adaptação onde os lucros são sempre mantidos. Em um sistema em que as potências aumentam seus orçamentos militares, apoiam o genocidio na Palestina e no Congo e aprofundam a extração, exploração e destruição dos riquezas bens naturais comuns junto à espoliação do trabalho em todo o mundo, a COP30 mal cumpriu seu papel de servir como maquiagem verde de um sistema decadente.
Belém e a luta dos povos indígenas pela terra. Demarcação já!
Já na preparação da COP em Belém, o prometido desenvolvimento com as obras de infraestrutura mostrou a que veio, e não poderia ser diferente em um governo que é expressão e parte ativa do consenso extrativista. A especulação imobiliária e as grandes obras vieram junto com a remoção e expulsão de populações locais e a completa ausência de investimentos na infraestrutura de saneamento e dos equipamentos básicos de saúde e educação da cidade que sediava a COP. Uma infinidade de movimentos indígenas e ambientalistas denunciaram desde o início da COP que, apesar do discurso oficial, eram os lobistas que se moviam livremente nos locais de decisão enquanto os movimentos indígenas e ambientalistas eram barrados.
O que mudou o script traçado pelo governo e colocou sobre a mesa os reais interesses dos povos da Amazônia e de preservação da floresta foi a luta dos povos indígenas. A luta por ter uma voz própria não é secundária. Ao exigir serem escutados, estão denunciando a demagogia daqueles que supostamente falam em seu nome, mas traem suas pautas e suas demandas, inclusive a ministra indígena do PSOL.
O choque entre as demandas dos povos indígenas e a política do governo ficou escancarado na COP, como parte de um processo de experiências com a política do governo Lula. Dois temas fundamentais mostram como a conciliação da frente ampla é crescentemente colocada frente a contradições estruturais que não pode resolver. O problema da terra e dos territórios indígenas, que se expressa na demanda por demarcação e na revolta contra a privatização dos rios que cortam as florestas e os territórios indígenas. Os negócios privatistas e de destruição do meio ambiente exigem o silêncio, exigem a não participação dos povos.
O governo foi obrigado a agir para conter o desgaste acelerado, com Sonia Guajajara anunciando a homologação de 4 terras demarcadas e 10 portarias declaratórias. Também Boulos tentou atuar como bombeiro junto aos movimentos sociais, anunciando uma consulta sobre as concessões do decreto de privatização dos rios, que ocorreria depois de já ter sido imposto o ataque. A demagogia foi desmascarada por lideranças indígenas que afirmaram o óbvio, que se governo quisesse a opinião dos povos indígenas, teria consultado antes de promulgar o decreto. Ao privatizar os rios, o governo ameaça as terras e modos de vida indígenas atravessados por estes rios, enquanto o Congresso Nacional busca formas de facilitar a entrada das mineradoras legalmente nas terras demarcadas e tomar medidas, como tomou nos últimos dias de flexibilizar ainda mais os licenciamentos ambientais.
O governo Lula, que havia projetado a COP30 como uma forma de exercer liderança internacional no tema do meio ambiente e usar Belém como vitrine dos seus projetos sociais, colheu vários fracassos em seus objetivos. Ao se comprometer completamente com as negociações, a quase ausência de consensos - consequências do aumento das tensões geopolíticas e da crise dos organismos multilaterais - se tornou uma mostra de debilidade da posição de Lula como negociador. Comprometido com as petroleiras e mineradoras, Lula viu Petro roubando a cena com sua iniciativa. Depois do protesto dos povos indígenas, a ONU enviou uma carta ao governo apontando falhas de organização, de logística e de segurança. O que significa, na prática, uma exigência de repressão aos povos que exigiram seu lugar nas tomadas de decisão.
O saldo para o governo dificilmente poderia ter sido pior. Era o grande evento de Lula e do governo no ano, para mostrar força e projeção internacional, mas foi um fracasso. Os compromissos que saíram foram pífios e ainda se expressou grande descontentamento com a política do governo para o meio ambiente e para os povos indígenas. Os impactos imediatos do fracasso do governo ficam num segundo plano com a prisão de Bolsonaro e a retirada de tarifas de Trump, mas, longe dos holofotes da COP a luta dos povos indígenas seguirá se desenvolvendo. O descontentamento que a COP mostrou nos protestos, e nem falar nas redes sociais, seguirá se desenvolvendo e enfrentando a violência dos grileiros e do agronegócio contra suas comunidades e territórios.
Nós do MRT estivemos presentes em Belém atuando junto aos povos indígenas, ambientalistas, junto ao movimento de solidariedade ao povo palestino, denunciando os capitalistas e seus governos, com o trabalhador da UNICAMP e economista Matheus Correia e o diretor do sindicato dos petroleiros do Rio de Janeiro e da FNP, Leandro Lanfredi.
Procuramos desde lá erguer a voz daqueles que protestavam contra a farsa da COP, contra a repressão aos povos indígenas, que denunciavam a cumplicidade do governo brasileiro com os genocídios dos povos indígenas aqui e do povo palestino, com a continuidade das relações comerciais e inclusive de envio de petróleo para a entidade sionista. O processo de experiência com o governo Lula e sua política ambiental e indígena é parte de um processo de experiência que é preciso ser feito pelos ambientalistas, sindicatos, povos indígenas, da impossibilidade de qualquer saída por dentro do capitalismo e de suas instituições para enfrentar as consequências produzidas pelo próprio sistema.
No grito e protesto comum de indígenas, ambientalistas, movimentos de solidariedade ao povo palestino e dos poucos sindicalistas que têm uma posição crítica ao extrativismo que o governo Lula mantém intacto, erguem-se os primeiros passos a se aprofundar de uma necessária aliança anti-imperialista e anticapitalista. Não somente para não deter os cataclismas que nos reserva esse sistema, mas para erguer uma nova relação da humanidade consigo mesma e com a natureza. Ao desenvolvimento dessa necessária orientação dedicamos nossos esforços, não somente em Belém, mas na nossa atuação cotidiana em cada local de trabalho e estudo como parte da luta comum da batalha dada na Argentina, na França, nos EUA e em cada país onde os socialistas revolucionários da Fração Trotskista Quarta Internacional atuamos.
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