MUNDIALÁfrica General brasileiro e Duquesa de Edimburgo: o exército de Lula a serviço do imperialismo no CongoPor Gab Costa
Esquerda Diário
11 de Outubre de 2025
Sob o discurso de “cooperação pela paz”, o Brasil, país que abriga a maior população negra fora da África, empresta seus militares para sustentar operações que, na prática, defendem os interesses das grandes potências — como o Reino Unido — sobre as imensas reservas minerais e estratégicas do continente.
Mas a atuação do exército brasileiro nessas missões não é apenas simbólica. Por trás da retórica de “cooperação internacional”, há também interesses econômicos e geopolíticos bem definidos.
O Brasil participa de missões da ONU como MONUSCO no Congo e teve papel central na MINUSTAH (Haiti) por muitos anos. Essas missões trazem ao país visibilidade internacional e prestígio diplomático, que podem se traduzir em vantagens econômicas indiretas — acordos de cooperação, parcerias militares, fornecimento de equipamentos, logística, contratos de suporte técnico, e até influências sobre empresas brasileiras em matéria de extração mineral ou prestação de serviços nessas regiões de missão. Esse tipo de atuação pode abrir portas para empresas nacionais que atuam no setor de defesa, tecnologia de vigilância, construção ou consultoria internacional, pois atuar junto à ONU ou em zonas de missão militar pode ser convertido em “cartas de apresentação” para contratos futuros.
Além disso, missões como MONUSCO operam em regiões ricas em minerais estratégicos, como cobalto, coltan, ouro, tungstênio, entre outros, que são essenciais para a indústria global de tecnologia, armamento, baterias etc. O Brasil, enquanto ator comparativamente menor nesse cenário, pode lucrar seja na exportação de insumos ou no estabelecimento de parcerias internacionais de mineração ou processamento, quando essas empresas estrangeiras ou organismos multilaterais precisam de apoio logístico, diplomático ou militar para operar em países com infraestrutura fraca ou instabilidade. Ademais, o Brasil pode ganhar influência política nessas áreas, consolidar laços com potências ocidentais, reforçar sua posição em fóruns multilaterais, o que pode resultar em vantagens diplomáticas (facilitação de acordos comerciais, acesso a mercados, cooperação científica).
E como se não bastasse, existe também o componente de “ganho de mercado simbólico” na atuação reacionária das tropas brasileiras nessas missões: ser visto como uma potência regional que participa de missões de paz, que tem tropas operando no exterior, eleva o prestígio político do país junto a elites internas e externas. Esse prestígio pode ser explorado pelo governo para legitimar orçamentos militares mais altos, alianças com potências estrangeiras, acordos de venda ou doação de armamentos, capacitação militar (treinamentos, fornecimento de armamentos ou equipamentos), tudo isso envolvendo empresas ou setores que lucram direta ou indiretamente como consequência dessa projeção militar brasileira no exterior.
Todas essas “vantagens” que o Brasil recebe por atuar como “capitão do mato” de outros países coloniais trazem de brinde a decolagem da carreira de militares que vivem para garantir esse lugar ao Estado brasileiro. O general Ulisses, que hoje chefia a missão da ONU no Congo (MONUSCO), não é um nome novo na lista de militares brasileiros a serviço do imperialismo. Ele já havia comandado tropas na MINUSTAH, no Haiti — uma das experiências mais brutais de “pacificação” sob comando brasileiro. Durante mais de uma década, o Brasil liderou a ocupação militar de um país negro e empobrecido, sob o pretexto de “estabilizar” o território. O resultado foi a repressão de comunidades inteiras, o assassinato de civis e um histórico de violações de direitos humanos que ecoa até hoje.
Nesse contexto, a situação que a população do Congo enfrenta hoje torna o papel do Brasil nessas missões ainda mais absurdo. Hoje a República Democrática do Congo enfrenta uma das piores crises humanitárias do planeta: milhões de pessoas deslocadas internamente nos últimos anos, em províncias como Kivu Norte e Sul e Ituri há surtos de fome, doenças, falta de assistência e hospitais sem remédios. Segundo ACNUR, mais de 3 milhões de pessoas foram forçadas a deixar suas casas apenas nas regiões conflituosas, em meio a violações de direitos humanos, violência sexual, recrutamento forçado de civis, e generalizado descontrole das condições básicas de vida.
Outro problema central é a exploração mineral caótica. Minas de coltan, cobalto, diamante e 3Ts (coltan, tungstênio, estanho) são exploradas de forma ilegal ou semi-legal, muitas vezes por milícias ou com apoio externo, em regiões onde não há fiscalização alguma. O comércio desses minerais, essenciais para eletrônicos, baterias e componentes de alta tecnologia, movimenta fortunas, mas pouco retorna para as comunidades locais em termos de infraestrutura, serviços ou desenvolvimento econômico justo. A corrupção, a opacidade, a violência — tudo isso serve para alimentar o lucro externo, enquanto a população local segue extremamente vulnerável.
Apesar dos recursos naturais abundantes, o Congo está à beira da catástrofe humanitária. Segundo agências da ONU, a violência, o deslocamento interno, a insegurança alimentar e o colapso de serviços essenciais (saúde, água, saneamento) demandam ajuda urgente. Cidades como Goma, tomadas ou disputadas em confrontos, estão sem medicamentos suficientes e enfrentam bloqueios de linhas de suprimento.
A resposta internacional é a conivência com esse contexto onde seus interesses não são postos em risco e o Brasil, presente militarmente via MONUSCO, tem cumprido o vergonhoso papel de ser o cão de guarda das intervenções imperialistas.
Essa situação no Congo torna ainda mais gritante a contradição: o Brasil, país com uma população majoritariamente negra, cujas periferias sofrem diariamente com a violência policial e o racismo estrutural, exporta tropas para reprimir e controlar povos também negros e explorados no Congo. É o mesmo braço armado que aqui mata a juventude nas favelas, e lá se apresenta como “força pacificadora”. A suposta neutralidade da ONU encobre uma lógica colonial e racista que segue viva: as potências centrais continuam decidindo o destino de países oprimidos, enquanto o Brasil assume o papel subalterno de capataz imperialista.
O episódio da Duquesa de Edimburgo no Congo simboliza a hipocrisia dessa “diplomacia da paz”. Enquanto a realeza britânica posa para fotos com generais brasileiros, multinacionais exploram minerais essenciais para as indústrias de tecnologia e armamento. O exército brasileiro, sob ordens da ONU, atua como garantidor dessa exploração, reprimindo rebeliões e populações locais que resistem à pilhagem. Assim como no Haiti, trata-se de garantir a “ordem” necessária para que o capital internacional continue lucrando com o sangue africano.
Por isso, quando o governo Lula e o alto comando militar se orgulham da “liderança brasileira nas missões de paz”, o que estão realmente celebrando é a consolidação do Brasil como aliado, que busca prestígio internacional às custas da repressão a outros povos.
É a mesma política de conciliação de classes que preserva os privilégios dos militares e a subordinação ao imperialismo norte-americano e europeu. Não há nada de progressista em um país oprimido servir de instrumento para o domínio de outros. A única saída para uma verdadeira solidariedade internacional é a união entre os povos explorados, a juventude e a classe trabalhadora, tanto na América Latina quanto na África, para pôr abaixo o imperialismo e suas engrenagens militares.
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