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MUNDIAL

Brasil: Bolsonaro, crime contra o povo

Por Joana Mortágua *
Esquerda
11 de Abril, 2020

Nos últimos anos vimos a ascensão de políticos negacionistas ao poder em vários países. As evidências científicas dizem-lhes pouco e menos ainda quando contrariam as suas narrativas mais ou menos místicos sobre as soluções para os problemas sociais. Negar a existência de coisas que estão perante os nossos olhos, sejam as alterações climáticas ou uma pandemia viral, pode parecer simples loucura mas é uma escolha deliberada, consciente e política.

Presidentes como Trump e Bolsonaro escolhem negar verdades desconfortáveis porque elas desmontam o seu discurso radical ultra-simplista que atribui as culpas de tudo aos imigrantes, aos gays, aos estrangeiros. Mas também porque lidar com essas verdades implica confrontar interesses económicos que esses líderes querem proteger.

Negar a emergência climática permite a Bolsonaro manter práticas selváticas de extração mineira e produção agrícola que destroem a Amazónia com recurso a mão de obra quase escrava e consomem todos os recursos naturais. Da mesma forma, negar a ameaça de um vírus altamente contagioso permite a Trump não se contradizer sobre a (não) necessidade de um serviço público de saúde nos EUA e manter a aparência de um gigante económico que resiste ao “vírus chinês”.

Se fossem líderes de uma seita, no máximo poderíamos acusá-los de fanatismo. Mas enquanto chefes de governo são criminosos a soldo. A soldo porque o sistema capitalista convive bem com este fanatismo e agradece a proteção de setores de acumulação privada em setores tão sensíveis como o ambiente ou a saúde. E criminosos porque o seu negacionismo destrói a vida de milhões de pessoas.

Mas há limites. Quando depois de 70 dias de “atraso, negação e disfuncionalidade”(link is external), finalmente Donald Trump se declarou como “presidente em tempos de guerra”, os EUA já estavam “a caminho de ver mais mortos do que nas guerras da Coreia, Vietnam, Afeganistão e Iraque combinadas.

Só no Brasil, um país continental com 13,5 milhões de pessoas em pobreza extrema, Jair Bolsonaro parece não ter limites. Aliás, o Presidente para quem isto não passa de uma “gripezinha” quis demitir o Ministro da Saúde, Luis Henrique Mandetta, por defender o isolamento social. Para o seu lugar foi equacionado Osmar Terra, para quem "os países que radicalizaram na quarentena tiveram aumento de casos"… e sabe-se lá o que pensará sobre a forma da terra.

Qualquer país com a fragilidade económica do Brasil tremeria perante a necessidade de responder a uma pandemia desta dimensão. A única medida conhecida para conter o vírus é o isolamento social e isso obriga a um investimento massivo para que milhões não morram de fome. O Brasil não tem política para pagar a milhões em casa ou na favela, a pandemia faz cair a máscara do recuo do estado social.

Mas a alternativa é deixar que os mesmos e outros tantos milhões morram doentes. É que por isso que Mandetta tem o apoio dos 27 governadores estaduais, todos favoráveis ao isolamento. E dos presidentes das duas Câmaras, o Senado Federal e a Câmara dos Deputados, além do líder do Supremo Tribunal Federal. É por isso que foi isolado pelos militares, outro pesadelo.

Uma coisa é um país ter dificuldades em responder a uma pandemia de um vírus altamente contagioso e letal. Outra, completamente diferente, é não querer fazê-lo e deixar morrer gente por fanatismo.

É por isso que, no Brasil, Bolsonaro está a cometer um crime contra o povo e deve ser afastado do poder.



* Joana Mortágua Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda, licenciada em relações internacionais.