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MUNDIAL

Para Soraya Misleh, transferência de embaixada dos EUA é "provocação"; 52 palestinos foram mortos em protesto em Gaza

Rute Pina
Brasil de Fato
14 de Maio de 2018

Até o início da tarde desta segunda-feira (14), ao menos 52 palestinos foram mortos e 2,4 mil ficaram feridos na Faixa de Gaza após repressão de Israel aos protestos contra a transferência da embaixada dos Estados Unidos para Jerusalém — a representação diplomática estadunidense estava sediada na capital de Israel, Tel Aviv.

O ataque israelense ocorre na véspera da data conhecida como al-Nakba ("A catástrofe" em árabe), que marca o início do processo de expulsão de palestinos de suas terras após a criação do Estado de Israel, em 15 de maio de 1948.

Para a jornalista palestina-brasileira Soraya Misleh, os assassinatos nesta terça-feira evidenciam que a limpeza étnica persiste sem cessar há sete décadas. O pai de Soraya é um dos 800 mil palestinos expulsos durante a Nakba. Hoje, ela coordena a Frente em Defesa do Povo Palestino e integra a campanha global de BDS (Boicote – Desinvestimento – Sanções) à Israel no Brasil.

"É preciso que o mundo enxergue isso de uma vez por todas e fortaleça a solidariedade aos palestinos", afirmou ela, que considera como uma provocação a decisão do presidente dos EUA, Donald Trump, em transferir a embaixada e reconhecer Jerusalém como capital de Israel.

Nesta terça-feira (15), para relembrar os 70 anos da Nakba, movimentos pró-palestina convocaram um protesto em frente à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na Avenida Paulista em São Paulo (SP), às 18h. As entidades vão denunciar o genocídio e se solidarizar com a causa palestina na frente da federação.

Confira a entrevista com a jornalista na íntegra.

Brasil de Fato: Já são dezenas de palestinos que morreram nos protestos na fronteira da Faixa de Gaza contra a transferência da embaixada dos Estados Unidos para Jerusalém nesta segunda-feira (14). Estes protestos acontecem desde 30 de março. Em que contexto eles se inserem?

Soraya Misleh: Estamos às vésperas dos 70 anos da Nakba palestina, a Catástrofe, que representa para os palestinos a criação do Estado de Israel, em 15 de maio de 1948, mediante uma limpeza étnica planejada. Naquele momento, expulsaram 800 mil palestinos das suas terras, destruíram cerca de 500 aldeias de modo que ali teve início a questão dos refugiados palestinos. Hoje, são 5 milhões de refugiados nos países árabes e mais milhares nas diásporas pelo mundo.

A grande Marcha do Retorno começou no dia 30 de março, que é também um dia simbólico para os palestinos, o Dia da Terra — um dia que os palestinos celebram a resistência que ocorreu em 1976, quando durante protestos na Galileia contra a tomada de terra, seis palestinos foram mortos, centenas ficaram feridos e tivemos vários presos políticos.

Então, [os protestos recentes] se iniciaram em uma data histórica para os palestinos, que é o dia 30 de março, e a promessa era de seguir com a grande Marcha do Retorno, pelo menos, até o dia dos 70 anos da Nakba, nesta terça-feira (15).

Essas marchas, que começaram em Gaza, se espalharam por outras partes da Palestina. A sociedade palestina está inteiramente fragmentada, não pode se encontrar nem mesmo dentro da Palestina ocupada. É um regime institucionalizado de apartheid, de ocupação e de colonização. E esses protestos trouxeram justamente o simbolismo das reivindicações fundamentais do legítimo direito do retorno dos palestinos às suas terras e a questão da resistência heroica.

Somou-se a isso a questão de que, em dezembro [de 2017], o [Donald] Trump declarou Jerusalém como capital do Estado de Israel, o que é uma enorme provocação para os palestinos. Todo mundo sabe que Jerusalém é a capital histórica da Palestina. Os palestinos jamais vão aceitar essa afronta e estão se mobilizando e protestando. Esses protestos fazem parte dessa resistência legítima.

A repressão ao longo desta jornada tem sido especialmente violenta, não?

A repressão tem sido violenta como vemos agora em Jerusalém, como estamos vendo em Gaza — lá são mais de 8,5 mil feridos nesse período de sete semanas e 50 mortos só em Gaza. Hoje, em Jerusalém, os números são de aproximadamente 40 mortos [até a publicação desta entrevista, o Ministério de Saúde palestino confirmou 52 pessoas assassinadas]. Mas os palestinos resistem e seguem. Porque eles sabem que a libertação deles passa por essa luta.

Essa perspectiva não pode ser parada por balas. Cada gota de sangue derramada - e isso é histórico para os palestinos-, é fermento para os palestinos seguirem na luta. O intelectual palestino Edward Said dizia que: 'A cada um de nós que é abatido, dez outros surgem em seu lugar'. E a repressão não vai parar isso.

Qual a importância da solidariedade internacional nesse momento?

É preciso fortalecer, por todos os meios, a solidariedade internacional efetiva e ativa. Temos várias campanhas, por exemplo, a campanha pela libertação dos presos políticos palestinos. Hoje, há 6,2 mil presos políticos palestinos, inclusive mulheres e crianças, submetidos a maus-tratos e torturas. É preciso denunciar isso e fortalecer a campanha central de boicote aos investimentos a Israel, que é baseada na campanha que ajudou a por fim ao apartheid na África do Sul nos anos 1990.

O Brasil de se tornou, nos últimos anos, um dos cinco maiores importadores de tecnologia militar israelense. Israel converte os palestinos em verdadeiros laboratórios humanos, como inclusive vemos neste momento, ao matarem palestinos. E, depois, vendem isso para o mundo. E essas tecnologias estão nas mãos das polícias que, aqui no Brasil, promovem o genocídio do povo pobre e negro nas periferias brasileiras — o que mostra que essa luta é internacional, mais uma vez.

O mundo precisa continuar a se levantar contra a barbárie da ocupação sionista que impõe um cerco desumano aos palestinos em Gaza há 11 anos. É como uma prisão a céu aberto. Metade das crianças tem quadro grave de desnutrição. Nada entra e sai sem Israel permitir. E eu estou falando só de Gaza, em que são dois milhões habitantes e Gaza sofre bombardeios frequentes. Já em Jerusalém, há uma ordem de demolição de casas constante. Agora essa afronta do imperialismo, que vai construir a capital do estado para Jerusalém, violando como o Estado de Israel faz desde sempre, violando recomendações do direito internacional e outras convenções da ONU e violando os direitos legítimos dos palestinos.

Esse é outro ponto que eu gostaria que você comentasse porque essa transferência contraria o consenso da comunidade internacional, as recomendações da ONU… É uma decisão ilegal, então?

O próprio Estado de Israel se constitui como um estado ilegal. O Estado de Israel nunca respeitou nada que o direito internacional determina. Não respeita sequer a já injusta recomendação da partilha de 29 de novembro de 1947, recomenda pela Assembleia Geral das Nações Unidas, que lamentavelmente era presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha, que definiu a divisão da Palestina, metade para cada povo, um estado judeu e um árabe.

Aquilo já era injusto naquele momento. Os palestinos não foram consultados e foi um sinal verde para um plano deliberado de limpeza étnica pelos sionistas, era a constituição de um estado étnico homogêneo, de maioria judaica, em terras em que não havia maioria judaica. E sobre essa resolução injusta, Israel avançou para criação de um estado que ocupou 78% da Palestina histórica — Gaza, Cisjordânia e Jerusalém oriental. E essa situação de apartheid e colonização continua se agravando.

Então, de fato, Israel é um estado que não respeita nenhum direito internacional, assim como não respeita a vida dos palestinos e desumaniza os palestinos cotidianamente. Essa transferência trata-se de uma provocação a mais.

Qual o significado simbólico dessas mortes de palestinos na véspera da Nakba, que completa 70 anos?

Têm dois significados. Primeiro, essas mortes confirmam que a limpeza étnica continua 70 anos depois. A Nakba iniciou isso, mas, para os palestinos, ela segue. A Nakba não cessou. E é preciso que o mundo enxergue isso de uma vez por todas e fortaleça a solidariedade para isolar política e economicamente o Estado de Israel. É preciso denunciar a ilegalidade dessa ação do imperialismo. Em segundo lugar, ela tem o simbolismo de que a resistência heroica dos palestinos não se dobra, não se curva. E ela não vai se curvar até a Palestina ser livre.

Em Gaza e Jerusalém vão ser convocadas manifestações de massa. O que podemos esperar nessa próxima semana em reação a estes ataques de Israel?

Eu acredito que as manifestações e os protestos vão crescer muito. Os palestinos têm chamado greves como parte dessa luta. Os trabalhadores e trabalhadoras palestinas têm atuado chamando greve geral, toda a Palestina, inclusive os palestinos que vivem onde hoje é Israel — são 1,5 milhão que estão submetidos às leis racistas — realizam protestos e eu acredito que os protestos vão crescer, na verdade. Eles vão matar palestinos e isso vai explodir ainda mais a indignação e a busca de justiça pelos palestinos. A resistência ainda vai se ampliar.

Temos visto que a repressão é violenta e vai ser ainda mais violenta. Podemos ter mais mortos e mais assassinatos de palestinos, mais prisões. Mas também devemos ter mais palestinos nas ruas e mais palestinos protestando. E nós precisamos denunciar isso tudo para repudiar e conter essa violência da repressão nesse momento e desgastar ainda mais a imagem do Estado de Israel, que é um estado de apartheid.

Entre 18 e 22 de abril, a Fiesp projetou todas as noites a bandeira de Israel em sua fachada pelos 70 anos da criação do Estado de Israel, o que é uma afronta para nós todos que somos descendentes e de origem palestina e palestino refugiados. Por isso, vamos fazer um ato lá nesta terça-feira (15), repudiando essa ação aqui no Brasil.

Serviço:

Confira o calendário dos atos e atividades que marcam os 70 anos da Nakba em São Paulo (SP):

14/05 às 17h30 - 70 anos da catástrofe palestina: colonização e resistência (Sl. 08 - ciências sociais - FFLCH USP)

15/05 às 18h - 70 da Nakba palestina: resistência e solidariedade (em frente ao prédio da Fiesp na Av. paulista)

18/05 às 19h - A Questão Palestina e os conflitos no Oriente Médio: 70 anos de resistência popular contra o colonialismo israelense (Rua dr. Cesário Mota, 57 - Santo André)

19/05 às 10h - A Questão Palestina e os conflitos no Oriente Médio (sindicato dos advogados de SP)

24, 25 e 26/05 - Encontro dos Sem-Terrinha e a Solidariedade Internacional (Brasília)

26/05 às 14h - Núcleo Memória e a solidariedade à resistência popular Palestina (memorial da resistência de SP)

30/05 às 17h30 - 70 anos de resistência: a Palestina e os Marxistas (Rua Francisca Miquelina, 94 - Bela Vista, SP)

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira