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MUNDIAL

O Islão e o Ocidente: aquilo que correu mal e porquê

By Amir Nour
Global Research
April 16, 2018

« O velho mundo agoniza, um novo mundo novo tarda a nascer e, nesse claro-escuro, irrompem os monstros» (Antonio Gramsci)

Introdução : Entre a História « aparente » e a História « real »

Alvin Toffler, futurista proeminente, é regularmente citado, e com boas razões, quando diz que os iletrados do século XXI não são aqueles que não sabem ler nem escrever, mas aqueles que não sabem aprender, desaprender e reaprender.

No mesmo sentido, numa entrevista concedida em 2014, Noam Chomsky foi convidado a comentar o seu livro Masters of Mankind[ii]– uma colecção de palestras e de ensaios escritos entre 1969 e 2013. Sublinhando que o mundo se modificara muito durante esse período, o entrevistador perguntou-lhe se a sua compreensão do mesmo se alterara com o passar do tempo e, nesse caso, quais tinham sido os acontecimentos catalisadores dessa sua mudança de perspectiva sobre a política. Chomsky – eleito o melhor intelectual em 2005 – deu a seguinte resposta: “A minha compreensão do mundo modificou-se com o tempo. Aprendi muito sobre o passado e os acontecimentos em curso foram acrescentando novos materiais críticos. Não consigo, porém, distinguir eventos singulares ou pessoas. Trata-se de um processo cumulativo, de um repensar constante à luz de novas informações e de um reconsiderar daquilo que na verdade não compreendi. É, no entanto, certo que o poder hierárquico e arbitrário continua a ser o cerne da política do nosso mundo assim como a fonte de todos os males.”

Esta resposta sublinha a relevância das palavras verdadeiras, frias e duras proferidas por Winston Churchill, que se tornaram famosas: “A verdade é a primeira vítima da guerra (e) a História é escrita pelos vencedores.” Dan Brown, autor do romance Código da Vinci(The Da Vinci Code)[iii], não pensava de outra maneira ao escrever: “A História é sempre escrita pelos vencedores. Quando duas culturas se afrontam, o vencido é obliterado e o vencedor escreve os livros de História – livros que glorificam a sua própria causa e denigram o inimigo”. E como disse, em tempos, Napoleão: “O que é a História senão uma fábula consensual?”

Malek Bennabi[iv]– possivelmente um dos maiores pensadores muçulmanos do século XX – alude ao mesmo quando afirma: “Ainda está por escrever a história real do mundo moderno, já que apenas tem sido relatada a sua história aparente (além de) ser hoje necessário um certo sentido de esoterismo para penetrar nos segredos e nos arcanos da História (…) e deixar às gerações vindouras informação fidedigna sobre a herança do seu mundo.”[v]

Uma ilustração deste estado de coisas é seguramente a história do Islão – religião e civilização que alguns apontam actualmente, mais do que nunca, como fonte de muitos males. Para eles, o Islão transformou-se em “Islamofascismo”, “um novo arqui-inimigo” que uma “coligação interesseira” do “mundo civilizado” está decidida a atacar mediante todos os meios disponíveis, fazendo pairar a ameaça de uma “IV Guerra Mundial”[vi].

Na realidade, onde se situa, porém, ao longo dos tempos, a verdade relativamente a esta questão? Que significado e que impacto tiveram os acontecimentos momentâneos do 11 de Setembro nesta história? E, acima de tudo, o que se pode, razoavelmente, prever no tocante ao futuro do Islão e do mundo islâmico, nomeadamente no contexto daquilo que parece ser o crepúsculo da idade imperial e a aurora da era digital no meio de um vácuo moral global e de um influxo espiritual?

Uma breve história de uma longa luta

Uma grande parte dos muçulmanos acredita na profetizada “Guerra global contra o Islão” baseando-se num hadith(um dito do Profeta Muhammad) popular de há mais de mil e quatrocentos anos e segundo o qual “o mensageiro de Alá disse: As nações de todos os quadrantes estão a convergir contra vós [muçulmanos], agindo como pessoas esfaimadas que afluem para uma marmita. Nós perguntámos: Mensageiro de Alá, seremos poucos nesses dias? Ele respondeu: Não, sereis numerosos, mas sereis como a espuma de uma inundação repentina, sem qualquer peso, porque o medo abandonará o coração dos vossos inimigos e a fraqueza (Wahnem árabe) instalar-se-á nos vossos corações. Nós perguntámos: Mensageiro de Alá, o que significa a palavra Wahn? Ele respondeu: Amor pelo mundo e medo da morte.”

Quer seja autêntico quer não, este hadithquasesoa a verdadeiro perante a situação caótica actual que prevalece em todo o mundo muçulmano e o antagonismo ameaçador que se mantém entre o Ocidente e o Islão. Daqui resulta que o muito temido “choque de civilizações” pareça estar mais eminente do que nunca. Segundo o testemunho de Graham E. Fuller, “o Islão parece estar por detrás de um vasto leque de desordens internacionais: ataques suicidas, carros bombistas, ocupações militares, lutas de resistência, rebeliões, fatwas, jihads, guerrilhas, vídeos de ameaça, e o próprio 11 de Setembro (…). O Islão parece oferecer uma base analítica instantânea e fácil, susceptível de conferir sentido às convulsões do mundo actual.”[vii]

Precisamente, para compreender esta horrível “realidade aparente” e colocá-la numa perspectiva história e geopolítica, é com certeza útil recordar partes da história esquecida e desvirtuada que nos preparou para esta “realidade aparente”, partindo das suas origens mais remotas para chegar às diferentes manifestações contemporâneas dramaticamente evidenciadas pelo 11 de Setembro.

Como tal, qualquer balanço retrospectivo das relações entre o Ocidente e o Islão ficaria com certeza incompleto se não se referisse à história monumental de Arnold J. Toynbee, reconhecidamente uma das maiores realizações da erudição moderna[viii]. Vale a pena realçar que Toynbee escreveu um livro interessante[ix]sobre as interacções entre as civilizações do Ocidente e do Oriente e que trabalhou para o Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico (no Political Intelligence Department) durante a I Guerra Mundial.

No tocante ao lugar do Islão na História e às suas relações com o Ocidente, escreveu em 1948 : “No passado, o Islão e a nossa sociedade ocidental agiram e reagiram entre si em épocas sucessivas, em situações diferentes e alternando os papéis. O primeiro encontro entre ambos decorreu durante a infância da sociedade ocidental, quando o Islão era a religião distintiva dos Árabes, na sua idade heróica (…). Por conseguinte, quando a civilização ocidental superou a ameaça da sua extinção prematura e entrou numa fase de crescimento vigoroso, ao passo que o suposto Estado islâmico entrava em declínio e caminhava para a sua queda, a situação inverteu-se.” O historiador britânico sublinhava também que, na sua luta entre a vida e a morte, o Islão sobreviveu triunfantemente, conforme acontecera anteriormente com o Cristianismo.

Este não foi, porém, o último acto da peça, uma vez que “a tentativa, por parte do Ocidente medieval, de exterminar o Islão falhou tão redondamente quanto falhara anteriormente a tentativa, por parte dos construtores do império árabe, de capturar o berço da civilização nascente ocidental; uma vez mais, o contra-ataque seria provocado por uma ofensiva fracassada. Naquele tempo, o Islão era representado pelos descendentes otomanos dos nómadas convertidos da Ásia central.” Após o falhanço final das cruzadas, a cristandade ocidental manteve-se na defensiva perante o ataque otomano, durante a época tardo-medieval e a idade moderna da história ocidental. Os ocidentais conseguiram estancar a ofensiva otomana no rescaldo da batalha de Viena, que durou de 1683 até 1699, com a assinatura do tratado de paz entre a Sublime Porta e a Aliança Sagrada, em Karlowitz. A seguir, depois de terem cercado o mundo islâmico e lançado a sua rede sobre o mesmo, atacaram o antigo adversário na sua toca natal.

Segundo Toynbee, o ataque concêntrico do mundo ocidental moderno contra o mundo islâmico está na origem do confronto actual entre as duas civilizações. O historiador encarava esse confronto como fazendo “parte de um movimento ainda mais vasto e ambicioso, em que a civilização ocidental aspira nada menos do que à incorporação de toda a humanidade numa única sociedade, bem como ao controlo de tudo o que existe na terra, no ar e no mar, susceptível de ser explorado pela humanidade com a técnica ocidental moderna”. Assim, o confronto contemporâneo entre o Islão e o Ocidente “não só é mais activo e íntimo do que já foi em qualquer fase anterior do seu contacto, como também se distingue pelo facto de ser um incidente na tentativa empreendida pelo homem ocidental de “ocidentalizar” o mundo – empreendimento esse que será, possivelmente, considerado como o aspecto mais significativo e, seguramente, o mais interessante da História, até mesmo para uma geração que atravessou duas guerras mundiais.”

Toynbee chegou à conclusão de que o Islão enfrenta, de novo, o Ocidente de costas para a parede; desta vez, porém, as dificuldades são maiores e até ultrapassam “aquelas que marcaram os momentos mais críticos das cruzadas, uma vez que o Ocidente moderno não só é superior [ao Islão]em armas, como também do ponto de vista técnico, ao nível da economia, da qual a ciência militar depende em última instância, e acima de tudo, ao nível da cultura espiritual – a força interior que por si só cria e sustem as manifestações exteriores da dita civilização.[x]

De Deus para Prometeu

Terá esta percepção evoluído com o tempo, no Ocidente? E quem melhor do que Bernard Lewis, um orientalista reconhecido e professor emérito de Princetown, para abordar esta matéria? No mundo académico, é considerado o maior perito vivo do Médio Oriente sendo, de facto, um dos poucos historiadores que acabariam por ser actores históricos, por direito próprio. No seu livro de memórias[xi]conta o tempo de serviço prestado durante a guerra enquanto oficial dos serviços secretos britânicos (M16) em Londres e no Cairo, e a forma como, depois da II Guerra Mundial, teve o privilégio de ser o primeiro historiador ocidental a aceder aos arquivos otomanos. Também explica como cunhou a expressão de “choque das civilizações” nos anos 1950 – o que, do ponto de vista histórico, não está correcto uma vez que a noção foi, pela primeira vez, consignada num livro[xii]escrito por Basil Mathews em 1926 – e a forma como o 11 Setembro o catapultou para o palco mundial enquanto mentor importante de toda uma geração de neoconservadores americanos. Por todas estas razões, dificilmente poderá ser considerado um firme simpatizante do Islão.

Num livro intitulado, precisamente, “O Islão e o Ocidente”[xiii], publicado em 1993, Lewis recorda que, na grande epopeia medieval francesa das guerras entre cristãos e sarracenos (i.e. árabes), La Chanson de Roland(A Canção de Rolando), o poeta cristão esforça-se por transmitir uma ideia sobre a religião sarracena aos seus leitores ou melhor, aos seus auditores. Segundo esta visão, os sarracenos veneravam uma trindade baseada em três pessoas: Muhammad, o fundador da sua religião, e outras duas, ambas diabos, Apolino e Tervagante. Lewis acrescenta que “para nós, isto é cómico e diverte-nos o facto de o homem medieval ser incapaz de conceber uma religião ou outra coisa qualquer sem ser em referência à sua própria imagem. Nesta perspectiva, e considerando que a cristandade adorava o seu fundador associado a outras duas entidades, os sarracenos tinham necessariamente de venerar o seu fundador e este só podia ser uma das três figuras de outra trindade, que contava com dois diabos cooptados de modo a perfazer o número”. Em seguida, Lewis estabelece acertadamente um paralelo afirmando que, se o homem cristão medieval apenas concebia a religião em termos da trindade, os seus descendentes modernos apenas concebem a política em termos de teologia ou, conforme se diz hoje em dia, de ideologia, entre forças e facções de esquerda e de direita.

Bernard Lewis também sublinha a relutância recorrente de muitos ocidentais em reconhecer a natureza do Islão e o facto de ele persistir como religião independente, diferente e autónoma, dos tempos medievais aos tempos modernos. Podemos constatá-lo, segundo explica, através da nomenclatura adoptada para designar os muçulmanos, tendo “decorrido muito tempo antes que a cristandade acedesse a atribuir-lhes um nome com um significado religioso”. Com efeito, durante muitos séculos, tanto a cristandade oriental como ocidental designou os seguidores do Profeta de “sarracenos”, termo de etimologia incerta, mas que “possui claramente uma conotação étnica e não religiosa (…) na Península Ibérica, onde os muçulmanos vinham de Marrocos e por isso os designavam por mouros; no resto da Europa, os muçulmanos eram geralmente designados por turcos ou, mais a leste, também por tártaros, outro nome étnico facilmente aplicado aos povos islamizados das estepes, que durante um tempo dominaram a Rússia.” Lewis esclarece ainda que até há pouco tempo, “mesmo quando começou a reconhecer o Islão enquanto religião e não enquanto grupo étnico, a Europa exprimiu esta tomada de consciência mediante uma serie de analogias erradas, a começar pelos nomes atribuídos à religião e aos seus seguidores, maometanismo ou maometanos.”

Uma história mais profunda, como a de James Carroll[xiv], demonstra que este conflito supostamente inerente entre o Islão e o Ocidente “tem a sua origem mais no ‘Ocidente’ do que na Casa do Islão. A imagem dos muçulmanos associada à violência em virtude da sua religião foi construída ao longo dos séculos essencialmente por europeus que procuravam reforçar os seus próprios objectivos.”

Verdade seja dita, de que outra forma se poderia, por exemplo, justificar a surpreendente afirmação feita na Câmara dos Comuns, no século XIX, por William Ewart Gladstone, que foi quatro vezes Primeiro-Ministro da Grã Bretanha[xv]? De Corão na mão, gritou, então: “Enquanto sobreviver uma única cópia deste livro maldito, não poderá haver justiça no mundo.”[xvi]E de que outra forma interpretar as seguintes opiniões posteriormente expressas por Basil Mathews e Bernard Lewis, ambos agentes do M16 e verdadeiros convictos do “Choque das Civilizações” muito antes do ensaio e do livro de Samuel Huntington, que geraram um debate à escala global?[xvii]

No seu livro[xviii], Mathews descreve o Corão como “um sistema fixo de teocracia, concebido num caos tribal do deserto. No mundo moderno, [o Corão]desafia qualquer governo moderno, democrático, responsável, secular. É esta a razão pela qual a Turquia rejeitou o Corão enquanto regra do Estado. Ora, não dirigindo o Estado, não dirige nada, porque a atitude religiosa e os regulamentos sociais do Islão são as duas faces da mesma moeda. Não podem ser separados e continuar a ser Islão. O Islamismo maometano é a negação do progresso erigida em sistema ordenado divino. O Islão vincula-nos à adoração da pessoa de Muhammad. Mas as nossas mentes estão chocadas com os assassinatos, os casamentos forçados, a crueldade, o banditismo e a sensualidade. Enquanto homem árabe do século VII, o Profeta era maravilhoso; enquanto herói e dirigente – para não dizer santo – do século XX, ele é impossível.”[xix]

A opinião de Lewis sobre o Islão não difere. Contudo, procurando explicar “o motivo pelo qual tantos muçulmanos têm ressentimentos profundos em relação ao Ocidente e pelo qual a sua amargura não se apaziguará facilmente”, escreve, num artigo arrogante no Atlantic Monthly[xx]de Setembro de 1990: “Hoje deveria estar claro que enfrentamos uma disposição e um movimento que transcendem amplamente o nível das problemáticas e das políticas, e os governos que as prosseguem. Assistimos a um choque de civilizações – reacção talvez irracional, mas seguramente histórica de um antigo rival contra a nossa herança judaico-cristã, o nosso presente secular, e a sua expansão mundial. É crucial que, pelo nosso lado, não nos deixemos provocar e não adoptemos uma reacção igualmente histórica e igualmente irracional contra o rival.”

Aladino, a proibição de viajar e a fábrica do ódio

É um facto os americanos figurarem entre os povos mais educados do mundo. Também é, porém, um facto figurarem entre os menos conhecedores do mundo em geral e do mundo árabe e muçulmano em particular. Eles próprios admitem a veracidade desta falha e muitos deles gostariam de a ver corrigida.

Esta “lacuna do conhecimento” sobre a região foi o tema de um amplo inquérito realizado junto do público americano, intitulado “A imagem árabe nos EUA” e conduzido pelo Arab News/YouGov, entre 17 e 21 de Março de 2017.

Os participantes responderam a 24 perguntas fechadas, na maioria sobre comportamentos relacionados com notícias, conhecimento e interesse em visitar o mundo árabe e muçulmano, o aumento da islamofobia, opiniões sobre árabes que emigraram para os Estado Unidos e a percepção do papel dos mediana construção da imagem real desta parte do mundo.

Entre outros resultados deste balanço, 81% dos inquiridos não souberam identificar a região árabe no mapa; mais de três quartos indicaram que não viajariam até lá por ser demasiado perigoso; 65% admitiram saber pouco sobre a região e 30% indicaram não terem interesse em saber mais. Porém, o mais surpreendente foi constatar que mais de um quinto dos inquiridos indicaram que o “Sultanato de Agrabah” – a cidade fictícia de “Aladino”, o desenho animado da Disney – é uma parte real do mundo árabe. Uma proporção ainda maior (38%) afirmou que ficaria contente com uma “proibição de viajar” emitida contra cidadãos de Agrabah caso se viesse a comprovar que constituem uma ameaça. Um inquérito anterior da Public Policy Polling (PPP), realizado em 2016, durante a campanha presidencial americana, revelara que 30% dos votantes republicanos apoiavam o “bombardeamento de Agrabah” embora 57% afirmassem, felizmente, que não tinham a certeza de serem a favor!

David Pollock do Washington Institute for Near East Policy (WINEP) – um perito em sondagens que tem estudado longamente as relações entre os Estados Unidos e os países árabes – concorda estarmos perante um retrato negativo e sombrio, acreditando que o mesmo decorre de uma combinação de vários factores. No caso de algumas pessoas nos EUA, trata-se de “um sentimento geral de isolacionismo” e de “uma tendência para as pessoas reagirem assim para com todos os países estrangeiros e não apenas para com os países árabes”, indicou. Outras têm “preconceitos”, mas o mais importante “é existir uma tendência para associar toda a região ao terrorismo, aos refugiados e à guerra civil. A região não possui uma imagem positiva e boa parte dessa imagem é baseada na ignorância e na estreiteza de espírito.”

Os resultados chocantes deste inquérito talvez tivessem passado despercebidos se não reflectissem o verdadeiro estado da falta de conhecimento, quando não da ignorância, que orienta as duradoiras e frequentemente pouco sábias políticas americanas das sucessivas administrações e as percepções das pessoas relativamente a esta região atormentada. Uma característica que hoje é totalmente incompreensível na medida em que esta região se tornou o maior, senão o único cemitério de milhares de jovens americanos e outros soldados ocidentais enviados para a guerra em países estrangeiros sob a bandeira de uma louca “guerra contra oterror” transformada em “guerra doterror”.

Anteriormente a estes e outros numerosos inquéritos e estudos, o professor americano de comunicação de massas e autoridade galardoada do cinema, Jack G. Shaheen já dissecara este tópico. Fê-lo através de um livro[xxi]inovador publicado em Janeiro de 2001 e, mais tarde, num filme[xxii]produzido pela Media Education Foundation, ambos com o título de “Reel Bad Arabs: How Hollywood Vilifies a People”.

Nesta investigação meticulosa sobre um milhar de filmes – dos primórdios da história do cinema, em 1896, aos blockbusters hollywoodianos em que os árabes aparecem caracterizados como “maus” empunhando metralhadoras e fazendo explodir bombas – Shaheen documentou a tendência para retratar árabes e muçulmanos como o “Inimigo Público número I” fazendo-os passar por “Outros brutais, sem coração, incivilizados e apostados em aterrorizar Ocidentais civilizados”. Descobriu que em 1000 filmes com caracteres árabes e muçulmanos, 12 continham descrições positivas, 52 eram retratos neutros e 936 negativos.

Pôde, desta forma, realçar estereótipos anti-muçulmanos e anti-árabes e comprovar os cruzamentos existentes entre a cultura popular e a política estrangeira. Para o efeito, descreveu a forma como, ao longo da História, a criação estratégica de estereótipos de populações foi utilizada para ganhar o apoio das populações para determinadas políticas governamentais, citando a carreira de Leni Riefensthal e discursos de Lenine e de Goebbels para ilustrar a longa história do filme enquanto veículo de propaganda.

Shaheen explicou que tentou “tornar visível aquilo que muitos de nós parecem não ver: a existência de uma matriz perigosamente consistente de estereótipos árabes odiosos, estereótipos que roubam a humanidade a todo um povo (…). Todos os aspectos da nossa cultura projectam o árabe como vilão. Este é um dado adquirido. Não há desvios. Utilizámos algumas imagens estruturadas e repetimo-las vezes sem conta (…). Inicialmente, herdámos a imagem do árabe dos europeus. Há talvez 150 ou 200 anos, o britânico e o francês que viajavam até ao Médio Oriente e aqueles que não o faziam, fizeram nascer estas imagens do árabe como o Outro oriental[xxiii]. Estas imagens fabricadas foram depois adoptadas pelos americanos.” De acordo com Shaheen, nos Estados Unidos a imagem árabe começou a deteriorar-se sobretudo a seguir à II Guerra Mundial. Três acontecimentos maiores influenciaram esta mudança: o conflito Palestina-Israel, em que os Estados Unidos apoiaram Israel de forma inequívoca; o embargo árabe ao petróleo nos anos 1970, que enfureceu os americanos quando os preços do gás dispararam; e a Revolução Iraniana, que aumentou as tensões entre árabes e americanos quando estudantes iranianos fizeram reféns diplomatas americanos durante mais de um ano. Estes três acontecimentos charneira “trouxeram o Médio Oriente para as salas de estar dos americanos e, juntos, contribuíram para o modo como o cinema forjou estereótipos dos árabes e do mundo árabe.”

No tocante aos filmes do Departamento de Defesa, Shaheen identificou “Rules of Engagement” como o filme mais racista jamais realizado, tendo o guião sido escrito pelo ex-Secretário da Marinha, James Webb. E “se for ver o novo filme intitulado “The Kingdom”, verificará que, mais uma vez, as crianças árabes aparecem retratadas como terroristas. A consequência disto tudo é termos chegado a um ponto em que encaramos todas essas pessoas, nomeadamente árabes e muçulmanos, como o Outro inimigo, incluindo as crianças.”

Ao comentar o filme numa entrevista concedida a Democray Now!, Jack Shaheen declarou que “a humanidade não está ali presente. E se não conseguirmos ver a humanidade árabe, o que resta? Se não sentirmos nada, se sentirmos que os árabes não são como nós ou como qualquer outra pessoa, então podemos matá-los todos. Significa isso que merecem morrer, certo? A islamofobia faz agora parte da nossa psique. Palavras como ‘árabe’ e ‘muçulmano’ são encaradas como palavras ameaçadoras. E se as palavras forem ameaçadoras, que dizer das imagens que vemos no cinema e nos nossos ecrãs de televisão?” Concluiu afirmando que “a política e as imagens de Hollywood estão interligadas. Reforçam-se mutuamente: a política promove imagens míticas; as imagens míticas ajudam a implementar políticas.” Com efeito, conforme disse Jack Valenti, presidente da Motion Picture Association of America, “Washington e Hollywood nascem do mesmo ADN.”

Os pregadores da guerra e do terrorismo “islâmico”

No seu ensaio “Politics and the English Language”, George Orwell escreveu que a linguagem política serve para fazer com que mentiras soem como se fossem verdades, com que o assassinato pareça um acto respeitável e para dar um aspecto sólido ao vento puro. Este ensaio, juntamente com o seu outro clássico famoso, “1984”, publicado em 1949, são tão profundos que ainda hoje mantêm a relevância que tiveram no pós-II Guerra Mundial.

Assim, em Janeiro de 2017, a novela distópica “1984” esgotou na Amazon dos Estados Unidos, depois de ter chegado ao topo da lista de bestsellers. Esta ascensão começou na altura em que a conselheira de Donald Trump, Kellyanne Conway, cunhou a expressão “factos alternativos” quando lhe pediram que explicasse as razões que tinham levado o Secretário da Imprensa, Sean Spicer, a fazer afirmações cheias de imprecisões. Os jornalistas rapidamente qualificaram o comentário de Conway de “orweliano”. Um deles até concluiu que a “verdade” estava a ser redefinida em função daquilo que o governo dos Estados Unidos, a NATO e os seus interesses ocidentais declaravam como sendo verdade, e que qualquer discordância com as “reflexões de grupo” ocidentais se tornava uma “fake news”, independentemente do grau factual da intervenção dissidente.

É o que se passa com a questão do “terrorismo islâmico”[xxiv], que levou a um nível de islamofobia sem precedentes no mundo ocidental actual. Muito antes dos ataques terroristas de Setembro de 2011, os media americanos foram difundindo o medo do “terrorismo” mediante uma mensagem clara em que árabes e muçulmanos eram, se não terroristas, no mínimo extremistas que defendiam a violência e o terrorismo. Conforme demonstram os registos, e de acordo com o escritor político americano Michael Collins Piper[xxv]– estampilhado, sem surpresa, como sendo um téorico da conspiração, por parte de grupos judeus como a Anti-Defamation League, Bnai B’rith, o Simon Wiesenthal Center e o Middle East Media Research Institute –, os meios de comunicação que se transformam em “peritos” da informação sobre terrorismo apoiam-se frequentemente em fontes que possuem ligações estreitas com Israel e o seu lobby americano.

Piper recorda que, em 1989, a Pantheon Books publicou um pequeno volume[xxvi]pouco publicitado, que transmite um olhar cru e revelador sobre o desenvolvimento e o crescimento da “indústria do terrorismo”. Neste livro, os coautores, Professor Edward Herman e Gerry O’Sullivan da Universidade de Pennsylvania, fornecem uma abordagem global compreensível da forma como poderosos interesses específicos privados (nacionais e estrangeiros) trabalharam com agências governamentais nos Estados Unidos e a nível internacional, de modo a influenciar o olhar do mundo sobre o fenómeno do terrorismo dos dias modernos.

O público é, assim, informado da actividade terrorista por um governo e por “peritos” essencialmente de direita, que confirmam e reforçam o discurso da política do Estado. Os mass media que carecem de uma perspectiva equilibrada servem habitualmente de canais para a promoção de estereótipos e de informação tendenciosa, quando não de pura propaganda. Devemos recordar aquilo que o historiador Harry Elmer Barnes em tempos escreveu sobre os métodos utilizados pelos “inimigos da verdade, para suprimirem os historiadores que se atrevem a levantar o véu sobre as razões conducentes aos acontecimentos mundiais (…). Acuso os promotores de notícias do nosso país de, com as palavras semi-histéricas que imprimem e proferem e através das quais vangloriam políticas diplomáticas e militares extremas, nos conduzirem rapidamente para uma guerra com objectivos ilimitados e inatingíveis, que acarretará consigo uma gigantesca catástrofe de ruína e revolução, tanto em casa como no estrangeiro. Quando falo de promotores de notícias refiro-me a oradores e escritores, que incluem editores, escritores, jornalistas (da imprensa e da rádio), dramaturgos, leitores, professores, educadores, senadores e outros eleitos, membros de gabinete, dirigentes políticos e presidentes. Quando escrevem e falam sobre este tema como se houvesse um consenso, a acção segue-se de forma tão certa quanto a manteiga deriva do leite azedo.”[xxvii]

Muitos relatórios e investigações ajudaram, de facto, a fazer luz sobre o trabalho em rede islamofóbico dos ditos peritos, académicos, meios de comunicação e doadores, que fabricam, produzem, distribuem e fomentam o medo dominante, a intolerância, o ódio e as mentiras contra os muçulmanos e o Islão nos Estados Unidos, tais como: “A charia constitui uma ameaça para a América”; “mesquitas são cavalos troianos”; “o Islão radical infiltrou a América, o governo e as principais organizações muçulmanas”; “não existe um Islão moderado”; “muçulmanos praticantes não podem ser americanos leais”; e por aí fora. Dois destes relatórios[xxviii]foram publicados em 2011 e em 2015, revelando que tinham sido gastos perto de 200 milhões de dólares para apoiar actividades anti-muçulmanas.

Um dos beneficiários destes fundos é o website de Robert Spencer, “Jihad watch”, que recebeu doações no valor de mais de $500,000, entre 2001 e 2009. As ideias propagadas por Spencer – bem conhecido por classificar o Islão como ameaça diabólica a erradicar[xxix]– tiveram um eco inevitável na América e alhures. Revela-o a história de Anders Breivik, o terrorista de extrema-direita, que em 22 de Julho de 2011, cometeu o pior massacre que o seu pacífico país natal escandinavo, a Noruega, conheceu desde a II Guerra Mundial. No seu manifesto de 1.500 páginas, intitulado “2083 – Uma Declaração de Independência Europeia”[xxx] , Breivik refere-se 162 vezes a Spencer e ao seu website. Nas palavras do Washington Post, “ o monstro que admitiu ter abatido pelos menos 76 vítimas inocentes na Noruega, sentia-se animado pela mesma combinação de paranóia, xenofobia e alienação que alimenta o sentimento anti-muçulmano nos Estados Unidos. Sim, poderia ter acontecido cá.”[xxxi]

Além disso, esta poderosa indústria islamofóbica parece ter conseguido sobrepor-se àqueles que tentam contrariar as políticas do medo. Bethany Allen-Ebrahimian conta esta luta épica num artigo[xxxii], que conclui constatando que “os ideólogos almejam marginalizar os muçulmanos ao relacionarem a sua linguagem e o seu activismo com a sua religião. Acreditam que os muçulmanos são malévolos, ambivalentes, e perigosos. Estes islamofóbicos manipulam a verdade para fazer valer as suas reivindicações. No decurso deste processo, negam ao Islão os direitos de que gozam os cristãos, e silenciam as pessoas melhor posicionadas para reconciliar o Islão com o modo de vida americano moderno. É este o âmago da questão.”

A “guerra contra o terrorismo” passou assim a fazer parte da agenda política da visão geral neoconservadora, em que o Professor Bernard Lewis desempenhou um papel importante, nomeadamente graças aos media, que promoveram sistematicamente as suas palestras e os seus livros.

Explicando o papel educativo e político de Bernard Lewis num excelente artigo[xxxiii]escrito em Dezembro de 2002, Lamis Andoni analisava que o trabalho de Lewis e, sobretudo, o seu livro inflamatório “What went wrong: Western Impact and Middle East Responses” – publicado em Janeiro de 2002, logo após os ataques terroristas de 11 de Setembro, mas escrito pouco tempo antes dos mesmos – serviu de fonte principal para aquilo que se tornou praticamente um manifesto dos apoiantes da intervenção militar dos Estados Unidos para o “restabelecimento da democracia no Médio Oriente”. Esta apreciação havia, de facto, sido confirmada por Paul Wolfowitz em Março de 2002. Exprimindo-se através de um vídeofone durante uma cerimónia especial organizada em Tel Avive em honra do proeminente orientalista, Wolfowitz afirmou que “Bernard Lewis tinha analisado de forma brilhante as relações e as questões do Médio Oriente colocando-as num contexto mais alargado, dentro de uma linha de pensamento objectiva, original e sempre independente. Bernard ensinou [-nos] como compreender a história complexa e importante do Médio Oriente e utilizá-la como guia para construirmos um mundo melhor para as gerações vindouras.” A mesma análise foi confirmada no dia 5 de Abril de 2003, pelo New York Times, que descrevia o livro como tendo exercido grande influência no modo de pensar da administração Bush.

Ao declarar que os povos do Médio Oriente – ou seja, os árabes e os muçulmanos – falharam o comboio da modernidade e entraram numa “espiral descendente de ódio e raiva”, Lewis não só exonerou as políticas imperialistas americanas fornecendo-lhes uma justificação moral e histórica para a “guerra contra o terror” de Washington, como emergiu como principal ideólogo da recolonização do mundo árabe. Andoni deduziu este último aspecto da conclusão da obra, onde Lewis escreve que “se os povos do Médio Oriente prosseguirem o seu caminho actual, o bombista suicida poderá tornar-se a metáfora de toda a região não havendo, então, maneira de escapar a uma espiral descendente de ódio e despeito, raiva e autocomiseração, pobreza e opressão, que cedo ou tarde culminará num novo jugo estrangeiro.”

Tudo isto foi claramente resumido no já referido artigo de James Carroll, que concluía afirmando que a herança do hábito europeu da paranóia politizada tem vindo a ser continuada, de forma magistral, por dirigentes enlouquecidos da América do pós-11 de Setembro. Também eles, acrescenta, transformaram o medo do Islão numa fonte de poder, dando continuidade ao que fizeram prelados, cruzados, conquistadores e colonizadores. A História ensina-nos que este tipo de projecção interesseira pode, de facto, conduzir à criação de um inimigo pronto e desejante de transformar o pesadelo em realidade…

É contra este cenário de fundo que, numa próxima análise, analisaremos os acontecimentos do 11 de Setembro e o seu impacto nas relações contemporâneas entre o Ocidente e o Islão.