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MUNDIAL

Nelson Mandela: “Por este ideal, estou preparado para morrer” – (3)

Por Hora do Povo
6 de Março de 2018
Hora do Povo

Prosseguindo em seu depoimento ao tribunal que o condenou, Nelson Mandela expõe, neste trecho que publicamos hoje, a relação do CNA com o Partido Comunista e sua própria posição política em sua luta contra o apartheid: “Talvez seja difícil para os sul-africanos brancos, com um preconceito entranhado contra os comunistas, compreenderem por que políticos africanos experientes tão prontamente aceitam comunistas como seus aliados. Mas, para nós, a razão é evidente. Entre aqueles que combatem uma opressão, divergências teóricas são um luxo para o qual não há lugar. Ademais, por muitas décadas os comunistas foram o único grupo político na África do Sul disposto a tratar os africanos como seres humanos e seus iguais; os comunistas foram os únicos que se dispunham a comer conosco, a falar conosco, a conviver conosco e a trabalhar conosco”

NELSON MANDELA

Comecei a fazer um estudo da arte da guerra e da revolução, e, no exterior, me dediquei a um curso de treinamento militar. Se houvesse guerra de guerrilhas, queria estar pronto, em condições de lutar ao lado do meu povo e compartilhar os perigos da guerra com ele.

Abordei essa questão como todo nacionalista africano. A Corte verá que tentei examinar todos os tipos de autoridades sobre o assunto – do Oriente e do Ocidente, voltando até ao clássico trabalho de Clausewitz, e abrangendo uma variedade tão variada como Mao Tsé Tung e Che Guevara, de um lado, e os escritos sobre a Guerra Anglo-Boer, de outro. Certamente, essas notas são apenas resumos dos livros que eu li e não contêm as minhas opiniões.

CREDO DO CNA

Outra das alegações feitas pelo Estado é que os objetivos e metas do CNA e do Partido Comunista são os mesmos. Quero tratar disso e de minha própria posição política, porque devo considerar que o Estado pode tentar argumentar, a partir de certas exposições, que tentei introduzir o marxismo no CNA.

A alegação sobre o CNA é falsa. É uma acusação antiga, que foi refutada no julgamento por traição, e que tem, outra vez, levantado a cabeça. Uma vez que a alegação foi feita outra vez, vou abordá-la, bem como a relação entre o CNA e o Partido Comunista e entre a Umkhonto e esse partido.

O credo ideológico do CNA é, e sempre foi, o credo do nacionalismo africano. Não é o conceito de nacionalismo africano expresso no grito: ‘joguem o homem branco ao mar’. O nacionalismo africano do CNA é o conceito de liberdade e realização para os povos africanos em sua própria terra.

O documento político mais importante já adotado pelo CNA é a Carta da Liberdade. Não é, de modo algum, um plano para um estado socialista. Exige a redistribuição, mas não a nacionalização, da terra; prevê a nacionalização das minas, dos bancos e da indústria monopolista, porque os grandes monopólios pertencem apenas a uma raça, e, sem essa nacionalização, a dominação racial seria perpetuada, apesar da disseminação do poder político. Seria um gesto oco revogar as proibições da Lei do Ouro contra os africanos, quando todas as minas de ouro são propriedade de empresas europeias.

Nesse sentido, a política do CNA corresponde à antiga política do atual Partido Nacional, que, durante muitos anos, teve como parte de seu programa a nacionalização das minas de ouro, que, na época, eram controladas por capital estrangeiro.

Sob a Carta da Liberdade, a nacionalização ocorreria em uma economia baseada em empresas privadas. A realização da Carta da Liberdade abriria novos campos para uma população africana próspera em todas as classes, incluindo a classe média. O CNA nunca defendeu, em nenhum período de sua história, uma mudança revolucionária na estrutura econômica do país, nem em algum momento condenou a sociedade capitalista, na melhor das minhas lembranças.

OS COMUNISTAS

No que diz respeito ao Partido Comunista, se eu compreendo sua política corretamente, ele advoga a criação de um Estado baseado nos princípios do marxismo. Embora esteja disposto a trabalhar em prol da Carta da Liberdade, como solução de curto prazo dos problemas criados pela supremacia branca, ele vê a Carta da Liberdade como o início de seu programa, e não sua meta final.

Diferentemente do Partido Comunista, o CNA admitia unicamente africanos como membros. Sua meta principal era, e é, que o povo africano conquiste a unidade e os direitos políticos plenos. A meta principal do Partido Comunista, por outro lado, era afastar os capitalistas e colocar em seu lugar um governo da classe trabalhadora. O Partido Comunista procurava enfatizar as distinções de classe, enquanto o CNA busca harmonizá-las. Trata-se de uma distinção vital.

É verdade que sempre houve cooperação estreita entre o CNA e o Partido Comunista. Mas a cooperação é meramente prova de um objetivo comum – no caso em pauta, acabar com a supremacia branca -, não constituindo prova de uma comunhão completa de interesses.

A História do mundo é repleta de exemplos semelhantes. Talvez a ilustração mais notável seja a cooperação entre a Grã-Bretanha, os Estados Unidos da América e a União Soviética na luta contra Hitler. Ninguém, a não ser Hitler, teria ousado sugerir que tal cooperação convertera Churchill ou Roosevelt em comunistas ou instrumentos dos comunistas, ou que a Grã-Bretanha ou a América estivessem trabalhando para criar um mundo comunista.

Dou esses exemplos porque são relevantes diante da alegação de que nossa sabotagem foi um complô comunista ou obra de supostos agitadores. Isso porque outra instância de tal cooperação pode ser encontrada precisamente na Umkhonto. Pouco depois da Umkhonto ser constituída, fui informado por alguns de seus membros que o Partido Comunista apoiaria a Umkhonto, e isso depois aconteceu. Numa etapa posterior, o apoio foi dado abertamente.

Acredito que os comunistas sempre desempenharam um papel ativo na luta dos países coloniais por sua libertação, porque os objetivos de curto prazo do comunismo sempre corresponderão aos objetivos de longo prazo dos movimentos de libertação. Assim, os comunistas desempenharam um papel importante nas lutas de libertação travadas em países como a Malásia, a Argélia e a Indonésia, mas nenhum desses Estados hoje são países comunistas. Da mesma forma, nos movimentos de resistência subterrânea que surgiram na Europa durante a última Guerra Mundial, os comunistas desempenharam um papel importante. Mesmo o general Chiang Kai-Shek, hoje um dos inimigos mais amargos do comunismo, lutou junto com os comunistas contra a classe dominante, na luta que levou à sua assunção ao poder na China, na década de 1930.

Esse padrão de cooperação entre comunistas e não comunistas se repetiu no Movimento de Libertação Nacional da África do Sul. Antes da proscrição do Partido Comunista, campanhas conjuntas envolvendo o Partido Comunista e os movimentos no Congresso eram uma prática aceita. Os comunistas africanos podiam tornar-se membros do CNA e o faziam; alguns deles atuaram nos comitês nacional, provinciais e locais. Entre os que serviram na Executiva Nacional estão Albert Nzula, ex-secretário do Partido Comunista, Moses Kotane, outro ex-secretário, e J.B. Marks, ex-membro do Comitê Central do Partido Comunista.

Eu entrei para o CNA em 1944 e em 1952 me tornei presidente do CNA no Transvaal e vice-presidente nacional.

Em minha juventude, acreditava que a política de admitir comunistas no CNA, além da cooperação estreita, existente por vezes entre o CNA e o Partido Comunista em questões específicas, levaria à diluição do conceito de nacionalismo africano.

Nessa época, eu era membro da Liga da Juventude do Congresso Nacional Africano e fiz parte de um grupo que defendeu a expulsão dos comunistas do CNA.

Essa proposta foi fragorosamente derrotada, e entre os que votaram contra ela estiveram alguns dos setores mais conservadores da opinião política africana.

Eles defendiam a política, com o argumento de que, desde sua origem, o CNA foi formado e fortalecido, não como partido político com uma escola de pensamento político, mas como um Parlamento do povo africano, com espaço para pessoas de posições e convicções políticas diversas, todas unidas pela meta comum da libertação nacional.

Acabei aderindo a esse ponto de vista e o tenho defendido desde então.

Talvez seja difícil para os sul-africanos brancos, com um preconceito entranhado contra os comunistas, compreenderem por que políticos africanos experientes tão prontamente aceitam comunistas como seus aliados.

Mas, para nós, a razão é evidente. Entre aqueles que combatem uma opressão, divergências teóricas são um luxo para o qual não há lugar. Ademais, por muitas décadas os comunistas foram o único grupo político na África do Sul disposto a tratar os africanos como seres humanos e seus iguais; os comunistas foram os únicos que se dispunham a comer conosco, a falar conosco, a conviver conosco e a trabalhar conosco.

Eles eram o único grupo político disposto a trabalhar com os africanos com vistas à conquista de direitos políticos e a uma participação na sociedade.

Por esse motivo, há muitos africanos, hoje, que tendem a equiparar a liberdade com o comunismo. Eles são reforçados, nessa convicção, por um Legislativo que tacha todos os expoentes do governo democrático, e da liberdade africana, de comunistas, e que, sob a Lei de Supressão do Comunismo, cassou muitos deles (que não são comunistas).

Embora eu não seja comunista e nunca tenha sido filiado ao Partido Comunista, eu mesmo fui cassado segundo os termos daquela Lei perniciosa, devido ao papel que exerci na Campanha de Desafio. Eu também fui cassado e condenado dentro dos termos dessa Lei.

Não é apenas na política interna que contamos com os comunistas entre aqueles que apoiam nossa causa. No campo internacional, os países comunistas sempre vêm nos ajudar. Nas Nações Unidas e em outros Conselhos do mundo, o bloco comunista tem apoiado a luta afro-asiática contra o colonialismo, com frequência parecendo ser mais solidário com nossa causa que algumas das potências ocidentais. Embora o apartheid seja universalmente condenado, o bloco comunista se manifesta contra ele em voz mais alta que a maior parte do mundo ocidental. Nessas circunstâncias, foi preciso ser um político jovem e incauto, como eu era em 1949, para proclamar que os comunistas eram nossos inimigos.

PATRIOTISMO

Gostaria agora de falar de minha própria posição. Neguei aqui que eu seja comunista, e creio que, nas circunstâncias, tenho a obrigação de declarar exatamente quais são as minhas convicções políticas, para explicar qual era minha posição na Umkhonto e qual é minha atitude em relação ao uso da força.

Sempre me vi, em primeiro lugar, como um patriota africano. Afinal, nasci em Umtata, 46 anos atrás. Meu guardião era meu primo, que era o então chefe máximo de Thembuland, e tenho parentesco tanto com Sabata Dalindyebo, o atual chefe máximo, quanto com Kaiser Matanzima, o ministro-chefe para o Transkei.

Hoje me sinto atraído pela ideia de uma sociedade sem classes, atração que se deve em parte a leituras marxistas e em parte à admiração que sinto pela estrutura e organização das sociedades africanas antigas neste país. A terra, na época o principal meio de produção, pertencia à tribo. Não havia ricos ou pobres e não existia exploração.

É verdade, como já declarei, que fui influenciado pelo pensamento marxista. Mas isso também se aplica a muitos líderes dos Estados recém-independentes. Pessoas tão diferentes quanto Gandhi, Nehru, Nkrumah e Nasser admitem esse fato. Todos reconhecemos a necessidade de alguma forma de socialismo para possibilitar a nosso povo alcançar os países avançados do mundo e superar nosso legado de pobreza extrema. Mas isso não significa que sejamos marxistas.

Continua na próxima edição