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MUNDIAL

Os impactos da guerra da Ucrânia na economia do Brasil

Por Pedro Oliveira
Esquerda Diário
15 de marco de 2022

Atualmente está em curso um processo inflacionário global. Nos Estados Unidos, a inflação acumulada em 12 meses chegou a 7,9% em fevereiro, a maior em 40 anos. Na Zona do Euro, o mesmo índice chegou a 5,1% em janeiro. É praticamente um consenso entre economistas e os meios de comunicação de que a guerra na Ucrânia irá aprofundar este processo.

Isto já pode ser sentido no Brasil, no reajuste do preço dos combustíveis anunciado na última quinta-feira, que deverá levar a gasolina para mais de R$ 8 em diversos estados. As sanções sobre a Rússia, incluindo a proibição americana de importar petróleo e gás natural, tem levado ao aumento do preço do petróleo, dado que a Rússia é um dos principais produtores globais, e a principal fornecedora energética da Europa. Segundo analistas do banco Goldman Sachs, o preço do barril de petróleo pode chegar, em seu pico, a 135 dólares. Hoje, o preço do barril está em cerca de 112 dólares, contra um preço médio de 74 dólares em dezembro do último ano.

O uso do petróleo e a necessidade de combustíveis para o transporte de outros bens fazem com que o aumento nos seus preços tenda a gerar aumento nos preços dos outros produtos, o que deverá pressionar ainda mais a inflação no Brasil, que em fevereiro chegou a uma alta de 10,54% no acumulado de 12 meses. Ao contrário do que o governo federal e o mercado diziam, a inflação brasileira está acelerando no início de 2022, e não retrocedendo. As previsões do mercado para o IPCA no fim do ano tem sido constantemente revisadas para cima.

A inflação para o mês de fevereiro não leva em conta ainda o mega-aumento no preço dos combustíveis anunciado pela Petrobras, sendo que a gasolina é o item com o maior peso no cálculo do IPCA, e os combustíveis já haviam sido responsáveis pelo avanço da inflação em 2021. A Associação Nacional das Empresas de Transporte Público (NTU) já usa este novo reajuste da Petrobras para defender o aumento do preço das passagens pelo país, o que iria impactar ainda mais a queda da renda dos trabalhadores brasileiros.

Outro fator a impactar os preços globalmente serão as commodities agrícolas. Rússia e Ucrânia são importantes exportadores de produtos como o trigo, e suas produções serão, em grande medida, retiradas do mercado global, seja pela diminuição da produção, seja pelas sanções, seja pela decisão de priorizar o abastecimento dos mercados internos, seja pelo bloqueio dos portos do sul da Ucrânia, no Mar Negro e no Mar de Azov. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos prevê que as exportações de trigo de Rússia e Ucrânia irão diminuir em cerca de 12%, ou 7 milhões de toneladas, em relação às previsões iniciais. Segundo a FAO, o preço global dos alimentos poderia subir entre 8% e 22%, e a África, Ásia e Oriente Médio seriam as regiões mais atingidas.

No Brasil, a estiagem de 2021 levou à quebra da safra de diversos grãos, como a soja, carro chefe das exportações brasileiras e o arroz. O aumento dos preços internacionais das commodities pressiona também os preços internos a subirem, como já ocorreu em 2020. Em fevereiro, o preço médio da soja era 19,5% maior que o de dezembro. A agricultura brasileira é bastante dependente dos fertilizantes russos, e a disrupção deste mercado pode diminuir a produção brasileira, nesta safra e na próxima.

Outro fator a influenciar a inflação no Brasil é o preço do dólar. 2022 tem sido, até agora, um ano onde de valorização do real, após a taxa de câmbio fechar 2021 em R$ 5,57 por dólar, e o real tem se valorizado inclusive após o início da guerra na Ucrânia. O aumento do preço das commodities pode aumentar o valor total das exportações brasileiras, o que fortalece a moeda nacional. Outro fator que contribui para esse fortalecimento é o brutal aumento da taxa básica de juros, a Selic, pelo Banco Central. O fortalecimento do real, no entanto, pode ser revertido conforme o avanço da instabilidade política e econômica global, que tende a levar os fluxos de capitais rumo à opções de investimentos consideradas seguras, como os títulos da dívida dos Estados Unidos, e com o ciclo de aumento das taxas de juros americana e europeia, que também gera uma tendência à saída de capitais do Brasil.

A inflação alta no Brasil e o aumento das taxas de juros no exterior irão contribuir para a ampliação do ciclo de alta da Selic, tanto em sua duração quanto em sua intensidade, ou seja, a taxa de juros deve subir mais e se manter alta por mais tempo. Isto leva a um maior custo da dívida pública para o governo federal, e a maiores cortes de gastos em outras áreas, especialmente nos gastos sociais.

Um ponto importante a ser ressaltado é que, ainda que o Banco Central use a alta da inflação para justificar a subida dos juros, o principal fator para esta subida são os lucros que isso irá gerar ao mercado financeiro. O mecanismo pelo qual o aumento dos juros levaria a uma diminuição da inflação é a contração da demanda, com a diminuição de investimentos por parte das empresas e de consumo por parte das famílias. No entanto, a inflação do Brasil hoje não é puxada por um aumento da demanda, dado que a economia ficou praticamente estagnada no último ano, onde o país chegou a entrar em recessão técnica. O aumento de 4,6% do PIB é explicado muito mais pela base de cálculo menor, gerada pela recessão de 2020, do que por um reaquecimento da economia brasileira. Para 2022, as previsões são de estagnação, com o último boletim Focus prevendo aumento de 0,42% do PIB.

A atual inflação brasileira pode ser explicada por alguns fatores. O primeiro é a desvalorização do real, que aumenta os custos de produtos importados e torna mais lucrativa a exportação e menos interessante o mercado interno. Outro fator fundamental, talvez o mais importante, é o aumento dos preços administrados, como o da eletricidade, mas especialmente o dos combustíveis. A política de preços da Petrobras, ao buscar seguir os preços internacionais, gerou o maior lucro da história para seus acionistas, muitos dos quais estrangeiros, ao custo do aumento do preço da gasolina, diesel, etanol e gás de cozinha. O aumento do dólar, ao tornar os combustíveis mais caros em reais, contribui fortemente para o aumento dos preços domésticos.

O atual ciclo de alta da Selic iniciou-se em março de 2021, quando esta era de 2%. A previsão é que, na reunião do Copom deste mês, a Selic chegue a 11,75%. No mesmo período, o IPCA acumulado em 12 meses passou de 6,1% para 10,54%. Ainda que exista um gap temporal entre a mudança na política monetária e o seu efeito na inflação, o efeito dos aumentos nos juros tem sido extremamente baixo na variação da inflação e, segundo as previsões para o IPCA de 2022, seguirá sendo. No entanto, a resposta do Banco Central é aumentar ainda mais os juros, incentivado pelos economistas da Faria Lima.

Como dito anteriormente, esse aumento dos juros terá um impacto nos gastos do governo federal. Segundo a Folha de São Paulo, uma Selic média de 12% em 2022 fará o governo federal gastar R$ 900 bilhões a mais do que em 2021 com os pagamentos da dívida pública. Para que isso possa ser pago, o governo federal irá buscar fazer sangrar ainda mais os servidores públicos, as universidades federais, o SUS etc. Em ano eleitoral, as tentativas de Bolsonaro de fazer concessões para buscar ampliar sua popularidade, irão aumentar seus atritos com o mercado, como já vem ocorrendo, e irão aumentar também as pressões sobre executivo e legislativo para que se ampliem os ataques, como o PL 191/2020, apelidado de “x-tudo”.

Pode-se resumir o impacto da guerra na Ucrânia sobre a economia brasileira, então, em dois eixos, profundamente interligados. O primeiro é o aumento da inflação, com aumento dos preços do petróleo e das commodities. O segundo é o impacto sobre a dívida pública e a política fiscal do governo federal, que deverá intensificar os cortes de gastos. Ainda é incerto qual será o impacto sobre o PIB e a débil recuperação pós-pandemia. Neste ponto primam fatores que devem levar a uma desaceleração econômica, como a alta de juros e o corte de gastos, a manutenção da disrupção dos fluxos globais de comércio e das cadeias de suprimentos. Mas o aumento do preço das commodities, que compõem parte importante das exportações brasileiras e que tem sido o motor do mínimo crescimento que se viu nos últimos anos, atua como um fator que pode levar a algum incremento do PIB, mas que não mudaria o panorama geral de queda das condições de vida dos trabalhadores no Brasil.