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MUNDIAL

Proibidos de ver o mundo: a exploração dos trabalhadores migrantes nas fábricas de Taiwan

Por André Barberi
Esquerda Diário
23 de junho de 2021

Taiwan não é apenas o lugar mais perigoso do mundo em termos geopolíticos, como assinalou a revista britânica The Economist. É também um inferno trabalhista para as centenas de milhares de operários migrantes que povoam as fábricas de alta tecnologia taiwanesas, como a Foxconn, a TSMC e a Siliconware Precision Industries. Um protetorado dos Estados Unidos cada vez mais ameaçado pela política agressiva de reunificação com a China por parte de Xi Jinping, Taiwan revela a selvageria da burguesia asiática, que não deve nada à escravização que vemos de vastas camadas de trabalhadores oriundos do campo no sudeste da China.

Empresas de alta tecnologia que atuam em Taiwan, incluindo a japonesa Canon, a Siliconware Precision Industries (SPIL) e a Innolux, uma afiliada da fornecedora da Apple, a Foxconn, foram acusadas de prender trabalhadores migrantes em Taiwan, quando um surto de Covid-19 atinge a indústria tecnológica do país.

As acusações destacam as práticas trabalhistas utilizadas para sustentar a posição de Taiwan como uma potência de fabricação de tecnologia. O país é um elemento fundamental da indústria de semicondutores (sendo a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, TSMC, a maior empresa do ramo no mundo, superando a Intel e a Samsung, uma das razões da avidez de Pequim pela reincorporação territorial da ilha) – uma posição ainda mais crucial à medida que o mundo enfrenta uma crise de semicondutores (a TSMC é responsável por mais de 80% dos microchips de última geração utilizados pelas multinacionais globais).

De acordo com documentos internos e comunicações de funcionários, essas empresas proibiram os trabalhadores migrantes de sair dos dormitórios onde moram, exceto para ir trabalhar. A ordem é ir do dormitório ao trabalho, e do trabalho ao dormitório, trancafiando essas centenas de milhares de trabalhadores em condições muito mais restritivas do que o próprio governo de Tsai Ing-wen (Partido Democrático Popular) estabeleceu para a população geral de Taiwan.

Embora as exportações de Taiwan tenham aumentado com a forte demanda global por microchips, servidores, laptops e outros equipamentos necessários para home-office, a ilha viveu nas últimas semanas um grande surto de infecções por coronavírus. A economia de Taiwan cresceu quase 9 por cento no primeiro trimestre.

"Agora se tornou extremamente comum para os empresários trancar seus trabalhadores migrantes", disse Lennon Wong, um ativista da Serve the People Association. Uma pesquisa do grupo de direitos trabalhistas constatou que 60% dos trabalhadores migrantes estão proibidos de sair em seu tempo livre. São trancafiados nos dormitórios, que possuem de 4 a 12 trabalhadores em cada quarto, facilitando a transmissão interna do vírus e arriscando as vidas desses trabalhadores migrantes. A prática de trancafiar trabalhadores é comum para a patronal taiwanesa, que na ilha e na China continental, antes da pandemia, utilizavam esse expediente para obrigar trabalhadores a cumprir metas de produção, antes de serem liberados das extenuantes jornadas de trabalho.

Empresas como a King Yuan Electronics; a empresa Greatek Electronics, fornecedora de embalagens de chips e testes; a fornecedora de equipamentos de rede Accton Technology; e a empresa Foxsemicon Integrated Technology, uma filial da Foxconn, são exemplos de companhias que viveram surtos de COVID-19 na cidade de Miaoli, e aderem à prática capitalista taiwanesa do confinamento.

Com dados de abril de 2021, 713.000 trabalhadores migrantes, principalmente das Filipinas, Vietnã, Tailândia e Indonésia, estavam empregados em Taiwan, representando 8% da força de trabalho do país, que soma quase 12 milhões de pessoas. Mais de 60% desses trabalhadores migrantes, com menores direitos que os nativos, trabalham em fábricas, incluindo as que dominam as cadeias globais de fornecimento de componentes eletrônicos.

"A discriminação dos trabalhadores migrantes em Taiwan é sistêmica, mas a pandemia a tornou muito pior", disse Wong.

Os empresários, que são legalmente obrigados a fornecer alojamento e comida aos trabalhadores migrantes, em sua maioria terceirizam esses serviços para empresas menores que tentam manter os custos mais baixos possíveis. Sob pressão das autoridades sanitárias para evitar novos agrupamentos de fábricas, os empresários aproveitaram a oportunidade para ampliar as formas desumanas de tratamento aos trabalhadores, com restrições que recebem apoio tácito da presidente Tsai Ing-wen, que não se pronunciou sobre esses escândalos.

A Canon, uma empresa japonesa de produtos ópticos, confinou trabalhadores migrantes em sua fábrica na cidade de Taichung aos seus dormitórios quando não estavam de serviço, e até os advertiu contra conversas entre os companheiros de trabalho. "Exceto para ir e voltar do trabalho, não deixem o dormitório", disse a Canon em um blog interno. Acrescentou: "A conversa em grupo não é permitida no dormitório [sic]".

Diante da repercussão negativa, o cinismo da Canon não podia ser maior: "Não podemos negar que o conteúdo e a expressão que usávamos eram excessivos em algumas partes como resultado de nos concentrarmos demais na segurança dos funcionários e da comunidade". Aumentar gratuitamente a produção, e colaborar na infecção dos trabalhadores, se tornou uma prova de “preocupação com a saúde dos funcionários”. Já os trabalhadores migrantes da Innolux receberam uma mensagem em 13 de junho que dizia "Por favor, estejam informados de que todos vocês foram trancados por 30 dias a partir de ontem. Vocês não estão autorizado a sair mais, portanto, por favor, permaneçam no dormitório o máximo possível e sigam as regras impostas pela empresa Innolux, tudo isso é para a segurança de todos! [sic]".

A SPIL, filial da multinacional ASE, empresa de testes de microchips, exigiu em junho que os trabalhadores migrantes que vivem fora do local de trabalho retornassem aos dormitórios, onde foram então proibidos de sair, exceto para ir trabalhar. De acordo com dois trabalhadores da ASE e da SPIL, os trabalhadores migrantes são obrigados a entrar em seu dormitório com um passe eletrônico dentro de uma hora após o término de seu turno. Aqueles que chegam atrasados são trancados e interrogados.

A ASE disse que "implementou uma política solicitando a nossos funcionários trabalhadores migrantes que observem um horário ’ponto a ponto’, por exemplo, do dormitório para o trabalho e vice versa. Isto é para garantir que eles tentem ficar em seus dormitórios/residências após o trabalho e evitar viagens desnecessárias e reuniões de grupo".

A SPIL disse que “ respeita a escolha dos trabalhadores migrantes sobre se querem retornar ao dormitório ou não, apenas incentiva a sair menos". Entretanto, o contrário é verificado pelos comunicados internos da empresa. No dia 5 de junho foram lidas as instruções transmitidas aos funcionários pela chefia da SPIL: "Para proteger a saúde de todos os funcionários, a empresa proíbe todos os funcionários de sair [...] a empresa e o dormitório verificarão o horário de retorno da fábrica para o dormitório todos os dias". Trata-se de chantagem manifesta, que incluem, como no caso das demais empresas, ameaças de interrogatório e inclusive demissão (sempre sem qualquer direito trabalhista).

Depois que as infecções atingiram várias fábricas eletrônicas na cidade de Miaoli, no oeste de Taiwan, o chefe do governo local Hsu Yao-chang, em 7 de junho, anunciou que os trabalhadores migrantes do município estavam proibidos de sair de suas fábricas e dormitórios. Os apoios das autoridades municipais incentivam as barbaridades utilizadas pelas empresas. Como revela o Financial Times, “Alguns empresários estão recorrendo a táticas de medo. ‘Se você for infectado pela Covid-19, e se morrer, seu corpo será cremado imediatamente em Taiwan, sua família não poderá sequer ver seu corpo, e as finanças de sua família serão imediatamente desconectadas", disse Alibaba, um corretor de mão-de-obra de Taiwan, em uma mensagem enviada aos trabalhadores migrantes. "Se você não morrer, você será responsável por todas as taxas de isolamento durante o isolamento, tratamento médico e outras pessoas que tenham estado em contato com você’".

Os trabalhadores migrantes são vitais para as linhas de produção dos principais fabricantes de eletrônicos e chips de Taiwan. Os trabalhadores migrantes costumam fazer turnos da madrugada até a manhã seguinte ou turnos da tarde de cerca de 16h à meia-noite. Essas são turnos extenuantes para os quais as empresas de tecnologia não conseguem encontrar trabalhadores locais suficientes.

A "exemplar democracia asiática" abriga um dos regimes trabalhistas mais selvagens do mundo, com o beneplácito dos Estados Unidos. Isso mostra que não é preciso ser a China para impor aos trabalhadores regimes de semi-escravidão, das quais são partícipes muitas multinacionais asiáticas, como do Japão. A combinação perversa de enclausuramento sanitário, que facilita o contágio e as mortes de operários, com a exigência de ritmos de produção mais altos, com a crise global no atebdimento à demanda dos semicondutores, é um verdadeiro inferno para trabalhadores de todo o sudeste asiático que migram para Taiwan. Sobre suas costas é despejado o ônus da produção em meio à pandemia.

De outro lado, entretanto, fica clara a falácia da diminuição da necessidade de força de trabalho humana e sua "substituição holística" por robôs. Marx estava correto também na estrutura produtiva asiática, polo da maior concentração proletária do mundo no século XXI. A luta de classes também tem "carta de cidadania" no curso da crise mundial e a rebelião dos trabalhadores asiáticos, como vemos em Mianmar, e não ser a diferente em Taiwan. A unidade dos trabalhadores, entre nativos e imigrantes, homens e mulheres, efetivos e terceirizados, é fundamental no Oriente como no Ocidente.