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MUNDIAL

Brasil: A violência cala mais uma voz da favela

Por Eduardo Miranda
Brasil de Fato
11 de novembro de 2020

No filme Ladrões de cinema (1977), de Fernando Coni Campos, um grupo de favelados rouba o equipamento de filmagem de uma equipe de cineastas norte-americanos que vieram ao Rio de Janeiro com o objetivo de registrar o carnaval carioca. O grupo volta à favela, o Morro do Pavãozinho, e discute o que fazer com o equipamento.

Em princípio, os moradores não acreditam que possam reverberar o próprio discurso para além do morro. A opinião contrária à filmagem é defendida pelo personagem de Grande Otelo: “Por ideal, cansei de fazer samba de morro pra escola e ninguém nunca deu bola. Por ideal, fiz um argumento pra filmar e ninguém quis o meu argumento. Tu tem mais é que afanar aqueles trecos, filme, gravador, câmera, tudo aquilo, vender e me dar parte do dinheiro”.

Ao se decidirem por fazer o filme com o equipamento dos americanos, os favelados recebem a ajuda de um etnógrafo francês que consegue os negativos para a filmagem, além de oferecer uma rápida iniciação técnica sobre como filmar. O etnógrafo francês que ajuda os favelados saúda o filme como uma produção cinematográfica feita “pelo povo, sobre o povo e para o povo”.

Os novos cineastas reencenam a Inconfidência Mineira, tal qual um desfile de escola de samba de temas históricos. Por ironia, são traídos e delatados à imprensa internacional pelo homem que no filme dentro do filme interpreta o traidor de Tiradentes. Os favelados chegam ao cinema algemados e assistem à pré-estreia algemados.

O filme de Coni Campos resgata a trajetória de angústia do outro de classe por não poder falar e ainda ter sua palavra capturada, sintetizada nas citações em abismo do termo ladrão (Ladrões de cinema se apropria do título do neorrealista Ladrões de bicicleta (1948), de Vittorio De Sica. Os favelados se apropriam de negativos de cineastas norte-americanos e estes, por sua vez, se apropriam de um material autêntico do carnaval carioca, já que produzido pelo olhar de dentro, dando ao filme o nome de Ladrões de sonhos).

'Ladrões de cinema' é uma espécie de autocrítica do intelectual dos 1960 que, falando da perspectiva da classe média, quis dizer ao povo o que era o povo.

Filme emblemático da época, Cinco vezes favela (1962) traz episódios filmados por cinco cineastas do Cinema Novo, entre eles Cacá Diegues, autor de um episódio com visão esquemática e negativa da cultura popular do Rio de Janeiro.

No curta-metragem que integra o filme Escola de samba, Alegria de viver, Dalva, uma militante sindical, é a todo momento rejeitada por moradores da favela que preparam o carnaval da escola de samba dias antes do desfile na avenida. Em uma das cenas do episódio de Cinco vezes favela, ouvimos um personagem fora do quadro repreender os gostos culturais do povo por se tratarem de "distração" e "barulho vazio".

A favela fala

Quase 50 anos depois, Cacá Diegues ajudou a produzir a visão da própria favela sobre aquele local no filme 5X favela - agora por nós mesmos. O veterano cineasta chegou a dar como subtítulo do filme um "agora por eles mesmos". “Me dei conta de que, mais uma vez, eu estava me colocando do lado de fora, e o filme é nosso, foram eles que corrigiram o título”, disse Diegues.

Na preparação do filme, que foi lançado em 2010, as cinco oficinas de roteiro tiveram 680 jovens e adultos inscritos, todos oriundos das favelas. Da triagem, 240 alunos participaram das oficinas. Destas, saíram 90 alunos selecionados para a equipe técnica, 40 alunos selecionados para o elenco e sete diretores para os cinco curtas-metragens que compõem 5X favela – agora por nós mesmos.

No curta-metragem, um adolescente precisa recuperar a pipa de um amigo que caiu no outro lado de favela dividida por um valão. No outro lado, outra facção domina o território. O menino atravessa e constata que a convivência não é totalmente impossível.

Essa lufada de esperança vinda da favela e da favela para o mundo, apesar da política genocida de sucessivos prefeitos da capital fluminense em relação às periferias da cidade, foi um presente de Cadu Barcellos, cineasta do Complexo da Maré, na zona norte do Rio, que vinha ganhando espaço na produção audiovisual cujos meios de produção tantas vezes estão nas mãos da elite.

Tantas outras vozes que vêm dando uma nova cara ao cinema brasileiro e à produção televisiva nas últimas duas décadas continuam aí oxigenando o nosso audiovisual, mas a voz e o olhar de Cadu Barcellos, que havia se tornado também roteirista do programa Porta dos Fundos e Greg News, se apagou na madrugada desta quarta-feira (11) após ser esfaqueado no centro do Rio em uma tentativa de assalto.

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato

Fonte: BdF Rio de Janeiro

Edição: Mariana Pitasse