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MUNDIAL

Os Donos Desta Europa (toda)

Por Miguel Guedes *
Esquerda
28 de Julho de 2020

Na perspectiva sábia do "vivendo e aprendendo", eis o caminho dos errantes entre o jogo da verdade ou consequência, acção-reacção, levanta-te e anda. Mais difícil é perceber como é possível continuar a querer mexer nos números da equação quando já sabemos, antecipadamente, qual o resultado de uma soma. Uma questão que até parece aditiva. Será preciso esconjurar o que é evidente e manifesto para obter satisfação momentânea? A velha luta entre hedonistas latinos e holandeses frugais está ao rubro. O Fundo de Recuperação não é oportunidade perdida, é um cartão de visita dos "Donos Desta Europa" (DDE).

Prémio tulipa de lata. Era para ser um plano de recuperação europeu que respondesse à urgência com solidariedade, mas é apenas um empréstimo dos frugais DDE à comunidade despesista que alimenta as contas do paraíso fiscal holandês com 10 mil milhões de euros/ano de impostos sobre o lucro, desviados das economias reais de cada um dos países para gáudio dos nossos liberais. As empresas cotadas em bolsa no PSI-20, a pagar impostos na Holanda, agradecem.

Fazendo contas aos 4,9 mil milhões da contribuição dos Países Baixos para o Orçamento europeu, percebe-se bem que é uma frugalidade paga a mais de 5 mil milhões de euros/ano desviados, alimentando essa ideia indigente de que a pobreza advém do pecado e a riqueza da seriedade. Os cortes de 7,5% da Coesão e de 9% na Agricultura nunca podem ser compensados por um mero adiantamento de futuros orçamentos. É o que é. Dramático é que só a oposição à esquerda do PS o diga sem rodeios.

Longe de ser um exclusivo europeu, são várias as versões deste "era para ser mas não é". O Parlamento era para ser a casa do debate em democracia, mas passa da abundância de um debate quinzenal com o primeiro-ministro para a frugalidade da presença de António Costa em formato bimestral. Isto, em nome do bloqueio central do debate, mas dificilmente em nome do valor de oposição do PSD (a contestação de alguns deputados da bancada do PS e do PSD é, porém, um sinal de quem nem todos se renderam à cultura da facilidade ou do curto caminho que dista entre o 8 e o 80). Os "vistos gold" eram para ser uma ferramenta para a captação de investimento e para a criação de postos de trabalho, mas, nos últimos oito anos, só 0,19% deram origem a empregos. Mário Nogueira era a favor do regresso das aulas presenciais, mas, intransigentemente e sem uma posição de diálogo, equaciona acusar o Ministério da Educação e a sua cúmplice DGS, moral e materialmente, no caso de algo correr mal no regresso às aulas em Setembro. E os "Donos Disto Tudo" ainda somos nós.

Artigo publicado em “Jornal de Notícias” a 24 de julho de 2020




*Miguel Guedes: Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.