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MUNDIAL

Brasil: Justiça por Floyd e João Pedro: Plenária virtual do Quilombo Vermelho reúne mais de 500 pessoas

Por Redação
Esquerda Diário
1º de junho de 2020

A plenária contou com a participação de companheiros do Left Voice, portal norte-americano parte da rede de diários online Esquerda Diário, intervenções de militantes do Quilombo Vermelho e independentes. Participaram da atividade trabalhadores de diversas categorias de todo o país, como as trabalhadoras da saúde, petroleiros, garis, rodoviários, metroviários, professores, estudantes secundaristas e universitários. Companheiros do Quilombo Vermelho entraram ao vivo da manifestação antifascista que ocorria na Av. Paulista enviando uma saudação direta da luta de classes. Em dois momentos a plenária teve gritos em coro por justiça para George Floyd e por João Pedro. Ao fim da plenária, se reforçou o chamado e a importância de seguir a organização dos negros e negras em combate ao racismo e ao capitalismo.

Letícia Parks, que conduziu a reunião, abriu a plenária passando a palavra para a fala da companheira Julia Wallace, militante negra socialista do Left Voice, diretamente dos EUA. Julia começou retomando o brutal assassinato de George Floyd, estrangulado por 8 minutos por um policial ajoelhado sob seu pescoço. Uma odiosa expressão do racismo do Estado norte-americano que sob Trump foi ainda mais intensificado. Julia relatou como a fúria incendiária dos negros e negras que eclodiu depois disso, não é apenas fruto da revolta contra esse caso, mas de um acumulado de mortes recentes, como foi o caso de Ahmaud Arbery, que expõe o racismo do aparato de repressão norte-americano mesmo em meio a pandemia. Um racismo, que em meio a pandemia, se evidencia nas mortes em primeiro lugar dos negros vítimas do vírus, isso no país com mais mortes no mundo. Para além da luta anti racista, a revolta que se expressa nos EUA tem como pano de fundo esse contexto de crise sanitária e econômica que evidenciam a crise do capitalismo no coração do imperialismo, com pessoas sendo mandadas para morrer em casa fruto da falta de um sistema de saúde público, com uma explosão da taxa de desemprego.

Julia citou a frase de Trump, “quando eles começarem a saquear começaremos a atirar”, para mostrar que a resposta do Estado é o incremento da repressão. Como ela contou, a mídia segue a linha de Trump e também criminaliza os protestos, condenando a violência e os saques, “mas nunca condenaram a violência contra os negros, nunca condenaram os saques imperialistas”. O partido democrata tão pouco tem crédito com os manifestantes. Em Minneapolis, foi o prefeito democrata que acobertou o policial assassinou Floyd, mantendo até há pouco em liberdade, assim como é o governador de Minnesota que autoriza a Guarda Nacional de Trump reprimir em seu estado. Biden, o candidato presidencial democrata, se apoia no legado Obama, mas Obama patrocinou a violência imperialista por todo o mundo.

“Eles estão esperando que voltemos para as plantations, como escravos obedientes. Mas nós não seremos obedientes. Precisamos de organização para desafiar e destruir as estruturas racistas e opressoras que esse sistema capitalista construiu. Mas para isso nós precisamos de um organização independente, sem nenhuma ilusão no partido democrata. Uma organização que assuma as bandeiras de todos os oprimidos, mulheres, latinos, imigrantes, conectando com as lutas internacionais, como o caso de João Pedro. (...) Estou no coração da besta, o destruidor do mundo, nossa luta aqui é muito importante mas não é suficiente para por um fim ao racismo. Precisamos expandir nossa luta juntos pois temos os mesmos inimigos.”

Ainda sobre a necessidade de uma luta internacional contra o racismo, Julia reivindicou a memória de Marielle Franco, "uma de nossas irmãs", concluindo que a fúria do levante dos negros e negras nos EUA reafirma as palavras de Assata Shakur e Marx de que “não temos nada a perder a não ser nossas correntes”.

Na sequência falou Carolina Cacau, professora da rede estadual do Rio e do Quilombo Vermelho, que começou citando os atos que ocorriam no mesmo momento em algumas capitais por justiça para João Pedro e George Floyd, como também em resposta aos atos da extrema-direita bolsonarista. Cacau destacou as similaridades entre os EUA e o Brasil, como ela apontou, aqui no país também prossegue o genocídio racista em meio a pandemia, da qual os negros são também as principais vítimas.

“Só no rio são 177 mortes pelas operações policiais. Enquanto o estado do Rio do governador Wilson Witzel está imerso em escândalos de corrupção na saúde, com vários bairros sem água sem saneamento básico, o estado oferece chacinas, como a do Alemão, e caveirões. A realidade está mostrando com a COVID-19 que esses governos sabem nos matar de diversas formas. A COVID-19 mata mais os negros, não porque a gente é por alguma questão genética ou de saúde um grupo de risco, mas que as nossas vidas só importam na medida de que eles possam explorar ao máximo nossa força de trabalho.”

Por isso, como Cacau colocou, não pode haver separação entre a luta contra o racismo e por uma resposta a crise política: “Derrubar o Bolsonaro é um problema dos negros sim, mas não podemos parar por aí e deixar que se fortaleça um governo militar no lugar. Um governo herdeiro direto da Ditadura Militar e de seu legado racista, com um histórico de repressão dos negros e a queima de favelas. O impeachment não é uma alternativa. Mas também não podemos ter ilusão em nenhuma dessas alas, como o Congresso, ou os governadores que comandam as polícias assassinas nos estados.

Fortalecer a classe trabalhadora para que ela possa dar uma saída para a crise política é o caminho. Para combater o bolsonarismo que ontem evocaram a Klu Klux Klan em ato em Brasília, que a gente responda com a fúria dos negros.”. Falou também sobre a presença dos militares no governo Bolsonaro, incluindo alguns que foram parte de comandar as tropas brasileiras para reprimir o povo negro no Haiti, sob ordens do governo do PT, que também colocou a polícia nas favelas e comunidades do Rio de Janeiro. Por isso, não poderiamos ter nenhuma ilusão nesse partido. A saída passa pela organização da classe trabalhadora junto ao povo pobre e oprimido, de forma independente de todas as variantes da classe burguesa.

Depois da fala de Cacau, companheiros do Quilombo Vermelho e da Juventude Faísca entraram diretamente do ato antifascista que acontecia ao mesmo tempo na Av. Paulista. Sérgio, professor de São Paulo e do Quilombo Vermelho, e Lara, da Juventude Faísca e diretora do Centro Acadêmico da Letras USP (CAELL), mostraram a mobilização na rua chamando a transformar o ódio e a indignação que se mostram em organização, se inspirando no exemplo da fúria negra dos EUA para combater aqui no Brasil o racismo e o autoritarismo do Estado brasileiro, pelo Fora Bolsonaro e Mourão. Sem justiça sem paz!

Marcelo Pablito, que trabalhou por mais de 10 anos no restaurante universitário da USP e do Quilombo Vermelho, falou na sequência, começando por saudar os trabalhadores presentes e todos aqueles trabalhadores essenciais que estão na linha de frente, mostrando que os trabalhadores ocupam uma posição estratégica, que são eles que mantém o mundo em atividade. Pablito recuperou o vínculo indispensável entre racismo e capitalismo:


“O racismo é uma ideologia criada no passado para justificar uma das maiores barbáries da humanidade, a escravização de milhões de negros e negras. Foi a partir dessa barbárie que a burguesia conseguiu edificar toda a sua riqueza. Por isso que não podemos combater o racismo sem combater o capitalismo. O racismo é inseparável do capitalismo, como já dizia Malcolm X.”

Pablito prosseguiu mostrando como o racismo segue funcional ao capitalismo, através da divisão das fileiras da nossa classe, com menores salários ao negros, com a divisão entre efetivos e terceirizados. Como dizia Marx, “O trabalho de pele branca não pode se emancipar onde o trabalho de pele negra é marcado a ferro". É essa aliança, como ressaltou Pablito, que mais amedontra a burguesia, como mostram os exemplos históricos tanto nos EUA quanto no Brasil:

“É importante citarmos o exemplo dos motoristas de ônibus dos EUA que se negaram a transportar os presos nas manifestações. Assim como na história norte-americana, quando os protestos anti racistas invadiram as indústrias automobilísticas com a organização de greves foi quando a burguesia mais ficou preocupada. Da mesma forma, o Brasil conta com importantes exemplos dessa aliança de todos os trabalhadores pelas bandeiras anti racista. Trabalhadores das gráficas, padeiros entre outros foram parte importante do movimento abolicionista forjando cartas de alforria, organizando fugas e escondendo escravizados fugidos.”

Por fim, Pablito ressaltou os exemplos iniciais de revolta e organização dos trabalhadores aqui no país: “Os primeiros focos de resistência são dos trabalhadores da saúde e dos trabalhadores precarizados, categorias majoritárias negras. Como vimos aqui no Hospital Universitário da USP, nos buzinaços feitos pelos entregadores de apps(...) São esses trabalhadores que vem mantendo o mundo funcionando, mostrando seu papel essencial, uma localização estratégica que nos permite atacar esse sistema e por fim a opressão racial. É necessário uma estratégia para atacar essa estrutura no seu coração, é preciso fazer avançar a organização. Deveríamos estar organizando uma campanha para enraizar e ganhar carne nos locais de trabalho essa luta anti racista.”

Depois de diversas intervenções, especialmente de mulheres negras conforme relatamos abaixo, Letícia Parks encerrou a emocionante discussão retomando o revolucionário Antonio Gramsci, sobre a necessidade de como frente a tudo que discutimos era necessário olhar a vida com o pessimismo da razão, da dura vida de mortes e violência contra os negros e a classe trabalhadora em todo mundo, mas com o otimismo da vontade daqueles que mais lutam contra esse sistema de exploração e opressão. Nos inspirando na história de luta do povo negro, e na organização revolucionária da classe trabalhadora para lutarmos por justiça por George, Floyd, Marielle e todas as vidas negras assassinadas por esse Estado racista e capitalista. Com a perspectiva de transformar nossa realidade, sabendo que quem tirou os negros da classe trabalhadora foram os historiadores capitalista, nossa batalha enquanto Quilombo Vermelho era colocar os negros que são maioria da gigantesca classe operária brasileira e estão na primeira linha do combate a pandemia, com as trabalhadoras da saúde, da limpeza, os trabalhadores precários de aplicativos e dos serviços essenciais, unindo a classe operária para lutar contra as burocracias que hoje estão em verdadeiras quarentenas enquanto os trabalhadores sofrem diversos ataques, por isso deveriamos retomar nossos sindicatos como ferramentas de organização da nossa classe, nos inspirando na fúria negra dos EUA para retomar às ruas pelo Fora Bolsonaro e Mourão, e para dizer que nossas vidas negras importam, que basta de morrermos pelas balas da policia, pela Covid e pelo lucro capitalista. Sendo essa luta parte da nossa batalha pela necessidade de preparar uma revolução operária e socialista e da construção de um novo mundo, uma sociedade livre da exploração e da opressão.

Como encaminhamentos da plenária foi feito um chamado para seguir a organização da luta contra a violência policial, contra o genocídio do Estado, pelo fim do racismo e desse sistema capitalista pautado na exploração. Como propostas de organização, foi feito o chamado um chamado para a organização de grupos de whatsapp para manter a comunicação e articulação entre esses lutadores. O convite para participarem dos comitês virtuais do Esquerda Diário, além da construção de uma grande campanha sob as consignas de #VidasNegrasImportam, "Basta de morrer pelas balas da polícia, pela COVID e pelo lucro capitalista!" #ForaBolsonaroEMourao.

Vitória, trabalhadora terceirizada da saúde do RJ: “a grande maioria das pessoas na linha de frente são mulheres. Faltam EPIs para as profissionais que estão na linha de frente, as companheiras que estão de licença estão sem receber. (...) negro não só tá sentindo essa repressão como ele também tá respondendo. (...) Eu conhecia o Rodrigo e me emociono muito em falar sobre a morte dele. Ele foi assassinado durante o trabalho dele, na bancada dele, onde ele vendia balas pra ajudar a mãe dele. (...) Eu quero criar junto com cada trabalhador aqui negro ou não, juntar força para combater o racismo e o capitalismo, pra criar um mundo novo em que não estejamos sujeitos a essa violência”.

Silvana, trabalhadora da limpeza de SP: “ontem eu e meu esposo acordamos com a policia jogando bomba aqui no sapé, bairro onde moro. Nós que trabalhamos diariamente, não somos reconhecidos, somos tratados como ninguém. Precisou de uma pandemia para que fossemos reconhecidos (...) Foi através de uma greve na USP que aprendi que é através da luta que conseguimos conquistar nossos direitos, precisamos nos organizar.”

Jeff, membro do Left Voice, dos EUA: “fico muito feliz de participar aqui com vocês, me sinto muito honrado de fazer parte desse partido internacional de compartilhar um programa com vocês, porque o racismo e a violência policial são internacionais o terror do capitalismo é internacional, por isso nossa luta precisa também ser internacional. Quero manifestar minha solidariedade a todos e dizer que estamos juntos nessa luta internacional.”

Maria dos Santos, direto de Madrid (Espanha): “a gente vive com o joelho pressionando nossos pescoços. Desde o momento q disseram q os negros são livres no Brasil nós não deixamos de ter o joelho no pescoço, não foram tomadas medidas para inserir os negros na sociedade, pra aquelas pessoas que foram arrancadas da África. (...) Nossas próprias famílias nos inculcaram esse medo, de que temos que nos resignar. Nos não vamos nos resignar, nos vamos nos vingar, nos vamos pra cima!”

Ticiana, de São Paulo: “(...) pra um supremacistas matar um negro é um motivo de orgulho. esse policial assassino pode se tornar um símbolo pra esses setores. só prendê-lo não é o suficiente. (...) Como nos organizamos pra fazer frente a esses setores? como aqui no brasil, do mito racial, adaptamos a luta dos negros nos EUA pra combater o genocídio da população?”

Tauani, do Rio de Janeiro: “os negros sempre foram oposição, nosso antepassados sempre estiveram na luta e agora chegou a nosso hora (...) nós temos q ir pra rua mesmo, temos que quebrar tudo, fazer uma oposição real a esse sistema”