HOME | ACERCA | NACIONAL | LOCAL | MUNDIAL | DOCUMENTOS | CONTACTOS | ANTERIORES

MUNDIAL

A crise do coronavírus é um monstro alimentado pelo capitalismo

Por Mike Davis *
Esquerda Online
30 de marco de 2020

Coronavírus é o velho filme que assistimos várias vezes desde o livro de Richard Preston, de 1995, The Hot Zone, que nos apresentou o demônio exterminador, nascido em uma misteriosa caverna de morcegos na África Central, conhecido como Ebola. Foi a primeira de uma sucessão de novas doenças em erupção no “campo virgem” (esse é o termo apropriado) do sistema imunológico inexperiente da humanidade. O ebola foi logo seguido pela gripe aviária, que pulou para os seres humanos em 1997, e a SARS, que surgiu no final de 2002. Ambos os casos apareceram pela primeira vez em Guangdong, o centro de produção do mundo.

Hollywood, é claro, abraçou lascivamente esses surtos e produziu vários filmes para nos excitar e assustar. (Contagion, de Steven Soderbergh, lançado em 2011, destaca-se por sua ciência exata e precisa, bem como pela antecipação assustadora do caos atual). Além dos filmes e dos inúmeros romances sinistros, centenas de livros sérios e milhares de artigos científicos responderam a cada surto, muitos enfatizando o estado deplorável de preparação global para detectar e responder a essas novas doenças.

Um novo monstro

Então o Corona entra pela porta da frente como um monstro familiar. Sequenciar seu genoma (muito semelhante à sua bem-estudada irmã SARS) foi muito fácil, mas muita informação ainda está faltando. Na medida em que os pesquisadores trabalham noite e dia para caracterizar o surto, eles enfrentam três grandes desafios. Em primeiro lugar, a escassez contínua de kits de teste, especialmente nos Estados Unidos e na África, tem impedido estimativas precisas de parâmetros chave, tais como a taxa de reprodução, o tamanho da população infectada e o número de infecções benignas. O resultado tem sido um caos de números.

Segundo, tal como as gripes (influenza) anuais, esse vírus sofre mutação à medida que percorre populações com diferentes composições etárias e condições de saúde. A variedade que os norte-americanos provavelmente contrairão já é um pouco diferente daquela do surto original em Wuhan. Mutações adicionais podem ser benignas ou alterar a distribuição atual de virulência, que atinge acentuadamente pessoas com idade acima de 50 anos. O coronavírus é no mínimo um perigo mortal para os norte-americanos idosos, com sistema imunológico fraco ou problemas respiratórios crônicos.

Terceiro, mesmo que o vírus permaneça estável e com pouca mutação, seu impacto sobre grupo etários mais jovens pode diferir radicalmente nos países pobres e entre os grupos que se encontram em estado de extrema pobreza. Consideremos a experiência global da gripe espanhola em 1918-19, que se estima ter ceifado a vida de 1 a 3% da humanidade. Nos Estados Unidos e Europa Ocidental, o H1N1 foi mortal especialmente para jovens adultos. Isso geralmente foi explicado como resultado de seus sistemas imunológicos relativamente mais fortes, que reagiram exageradamente à infecção ao atacar células pulmonares, levando à pneumonia e ao choque séptico.

De qualquer forma, a gripe encontrou um nicho favorito nos acampamentos do exército e nas trincheiras do campo de batalha, onde destruiu jovens soldados às dezenas de milhares. Isso se tornou um fator importante na batalha dos impérios. O colapso da grande ofensiva alemã na primavera de 1918 e, portanto, o resultado da guerra, foi atribuído por alguns ao fato de que os Aliados, em contraste com o inimigo, poderiam reabastecer seus exércitos doentes com tropas americanas recém-chegadas.

Mas a gripe espanhola nos países mais pobres teve um perfil diferente. Raramente é levado em consideração que uma grande proporção da mortalidade global tenha ocorrido no Punjab, Bombaim e outras partes do oeste da Índia, onde as exportações de grãos para a Grã-Bretanha e práticas brutais de recrutamento coincidiram com uma grande seca. A escassez de alimentos levou dezenas de pessoas pobres à beira da fome. Eles se tornaram vítimas de uma sinergia sinistra entre desnutrição – que suprimiu a resposta imunitária à infecção e produziu bactérias, de forma desenfreada, – além de pneumonia viral.

Essa história – especialmente as consequências desconhecidas das interações com desnutrição e as infecções existentes – deve nos alertar que o COVID-19 pode seguir um caminho diferente e mais mortal nas favelas densas e doentes da África e do Sul da Ásia. Com os casos agora aparecendo em Lagos, Kigali, Addis Abeba e Kinshasa, ninguém sabe (e não saberá por um longo tempo por causa da ausência de testes) como ele pode interagir com as condições locais de saúde e doenças. Alguns têm afirmado que, como a população urbana da África é a mais jovem do mundo, a pandemia terá apenas um impacto leve. À luz da experiência de 1918, essa é uma extrapolação tola. Como é tolo o pressuposto de que a pandemia, tal como a gripe sazonal, recuará com o clima mais quente.

O legado da austeridade

Daqui a um ano, podemos olhar para trás com admiração pelo sucesso da China em conter a pandemia, mas horrorizados com o fracasso dos Estados Unidos. A incapacidade de nossas instituições em manter a Caixa de Pandora fechada, é claro, dificilmente é uma surpresa. Desde pelo menos 2000, observamos repetidamente falhas na assistência médica básica, nos cuidados básicos da saúde.

As temporadas de gripe de 2009 e 2018, por exemplo, sobrecarregaram hospitais em todo o país, expondo a chocante escassez de leitos hospitalares após anos de cortes, com fins lucrativos, na capacidade de internação de pacientes. A crise remonta à ofensiva corporativa que levou Ronald Reagan ao poder e converteu os principais democratas em seus porta-vozes neoliberais. Segundo a Associação Americana de Hospitais, o número de leitos hospitalares diminuiu extraordinariamente 39% entre 1981 e 1999. O objetivo era aumentar os lucros aumentando o “censo” (número de leitos ocupados). Mas a meta da administração, de 90% de ocupação, significava que os hospitais não tinham mais capacidade de absorver o fluxo de pacientes durante epidemias e emergências médicas.

No novo século, a medicina de emergência continua a ser reduzida no setor privado pelo imperativo ‘valor para o acionista’ de aumentar dividendos a curto prazo bem como os os lucros, e no setor público pela austeridade fiscal e reduções nos orçamentos estaduais e federais para a prevenção. Como resultado, existem apenas 45.000 leitos de UTIs disponíveis para lidar com a inundação projetada de casos sérios e críticos de Corona. (Em comparação, os sul-coreanos têm três vezes mais leitos disponíveis por mil pessoas do que os norte-americanos.) Segundo uma investigação do USA Today “apenas oito estados teriam leitos hospitalares suficientes para tratar os 1 milhão de americanos com 60 anos ou mais que poderiam ficar doentes com COVID-19 “.

Ao mesmo tempo, os republicanos repeliram todos os esforços para reconstruir as redes de segurança destruídas pelos cortes no orçamento durante a recessão de 2008. Os departamentos de saúde locais e estaduais – a primeira linha vital de defesa – hoje têm 25% menos funcionários do que antes da Segunda-Feira Negra, doze anos atrás. Além disso, na última década, o orçamento do CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças) caiu 10% em termos reais. Sob Trump, os déficits fiscais só foram exacerbados. O New York Times informou recentemente que “21% dos departamentos de saúde locais relataram reduções nos orçamentos para o ano fiscal de 2017”. Trump também fechou o Escritório de Pandemia da Casa Branca, uma Diretoria criada por Obama após o surto de Ebola de 2014 para garantir uma resposta nacional rápida e bem coordenada a novas epidemias.

Estamos nos estágios iniciais de uma versão médica do furacão Katrina. Após desinvestir na prevenção médica de emergência, ao mesmo tempo em que toda opinião de especialistas recomendava uma grande expansão da capacidade médica, não temos suprimentos básicos de baixa tecnologia, nem respiradores e leitos de emergência. Os estoques nacionais e regionais têm sido mantidos em níveis muito abaixo do indicado pelos modelos epidêmicos. Portanto, o desastre do kit de teste coincidiu com uma escassez crítica de equipamentos de proteção para os profissionais da saúde.

As enfermeiras militantes, nossa consciência social nacional, estão se certificando de que todos nós entendamos os graves perigos criados por estoques inadequados de suprimentos de proteção, como as máscaras faciais do N95. Eles também nos lembram que os hospitais se tornaram estufas para superbactérias resistentes a antibióticos, como S. aureus e C. difficile, que podem se tornar grandes assassinos secundários em enfermarias superlotadas.

Uma crise desigual

O surto expôs instantaneamente a gritante divisão de classes na assistência médica norte-americana. Aqueles com bons planos de saúde que também podem trabalhar ou ensinar em casa ficam confortavelmente isolados, desde que sigam salvaguardas prudentes. Funcionários públicos e outros grupos de trabalhadores sindicalizados com cobertura decente terão que fazer escolhas difíceis entre renda e proteção. Enquanto isso, milhões de trabalhadores com baixos salários, trabalhadores rurais, desempregados e sem-teto estão sendo jogados aos lobos.

Como todos sabemos, a cobertura universal, em qualquer sentido significativo, requer provisão universal para licença médica remunerada. Atualmente, um total de 45% da força de trabalho não tem esse direito e é praticamente obrigada a transmitir a infecção ou se deparar com um prato vazio. Da mesma forma, 14 estados se recusaram a aprovar a disposição da Lei de Assistência Acessível, que expande o Medicaid para os trabalhadores pobres. É por isso que quase um em cada cinco texanos, por exemplo, carece de cobertura médica .

As contradições mortais dos cuidados de saúde privados em tempos de praga são mais visíveis no setor de casas de repouso com fins lucrativos, que abrigam 1,5 milhão de idosos americanos, a maioria deles no Medicare. É uma indústria altamente competitiva, capitalizada com baixos salários, pessoal insuficiente e corte ilegal de custos. Dezenas de milhares de pessoas morrem todos os anos devido à negligência nos procedimentos básicos de controle de infecções pelas instituições de cuidados de longo prazo e à falha dos governos em responsabilizar a administração, o que só pode ser descrito como homicídio doloso. Muitas dessas casas de repouso acham mais barato pagar multas por violações sanitárias do que contratar pessoal adicional e fornecer treinamento adequado.

Não surpreende que o primeiro epicentro da transmissão comunitária tenha sido o Life Care Center, um lar de idosos no subúrbio de Kirkland, em Seattle. Falei com Jim Straub, um velho amigo que é organizador de sindicatos nos lares de idosos da área de Seattle. Ele caracterizou os espaços desses lares bem como os equipamentos necessários, como “uma das piores equipes do estado” e todo o sistema de casas de repouso de Washington “como a mais subfinanciada do país – um oásis absurdo de sofrimento austero em um mar de dinheiro tecnológico”.

Straub apontou que as autoridades de saúde pública estavam ignorando o fator crucial que explica a transmissão rápida da doença a partir do Life Care Center para nove outros lares próximos: “Os trabalhadores de lares de idosos, no mercado de aluguel mais caro dos Estados Unidos, trabalham em vários empregos, geralmente em múltiplos lares de idosos.” Ele diz que as autoridades não conseguiram encontrar os nomes e localizações desses segundos empregos e, assim, perdeu todo o controle sobre a disseminação do COVID-19.

Em todo o país, muitos outros lares de idosos se tornarão pontos de entrada do coronavírus. Muitos trabalhadores acabam escolhendo fazer uso do banco de alimentos e ficam em casa, ao invés de trabalhar nessas condições. Nesse caso, o sistema pode entrar em colapso – e não devemos esperar que a Guarda Nacional resolva o problema.

O caminho a seguir

A pandemia ilustra o caso da cobertura universal da saúde e das férias remuneradas a cada passo de seu avanço mortal. Enquanto Joe Biden provavelmente enfrentará Trump nas eleições gerais, os progressistas devem se unir, como Bernie Sanders propõe, para ganhar o Medicare for All (Plano de Saúde para Todos). Os delegados de Sanders e Warren têm um papel a desempenhar na Convenção Nacional Democrática de Milwaukee em julho, mas o resto de nós tem um papel igualmente importante nas ruas, começando agora com as lutas contra despejos, demissões e contra os empregadores que se recusam a oferecer licença remunerada para os trabalhadores.

Mas a cobertura universal e as demandas associadas são apenas um primeiro passo. É decepcionante que, nos debates primários, Sanders e Warren não tenham destacado a abdicação da Big Pharma da pesquisa e desenvolvimento de novos antibióticos e antivirais. Das 18 maiores empresas farmacêuticas, 15 abandonaram totalmente o campo. Medicamentos para o coração, tranquilizantes viciantes e tratamentos para a impotência masculina são líderes em lucros, não as defesas contra infecções hospitalares, doenças emergentes e assassinos tropicais tradicionais. Uma vacina universal para a gripe – ou seja, uma vacina que atinge as partes imutáveis das proteínas de superfície do vírus – é uma possibilidade há décadas, mas nunca considerada lucrativa o suficiente para ser uma prioridade.

À medida que a revolução dos antibióticos é revertida, as doenças antigas reaparecem junto com novas infecções e os hospitais se tornam sepulturas. Até Trump pode, oportunisticamente, opor-se aos custos absurdos da prescrição médica, mas precisamos de uma visão mais ousada que busque romper os monopólios das drogas e proporcionar a produção pública de medicamentos que salvem vidas. (Esse costumava ser o caso: durante a Segunda Guerra Mundial, Jonas Salk e outros pesquisadores foram recrutados para desenvolver a primeira vacina contra a gripe.) Como escrevi quinze anos atrás, em meu livro O Monstro à Nossa Porta – A Ameaça Global da Gripe Aviária:

O acesso aos medicamentos que salvam vidas, incluindo vacinas, antibióticos e antivirais, deve ser um direito humano, universalmente disponível sem nenhum custo. Se os mercados não puderem oferecer incentivos para produzir esses medicamentos de maneira barata, os governos e organizações sem fins lucrativos devem assumir a responsabilidade por sua fabricação e distribuição. A sobrevivência dos pobres deve ser sempre considerada uma prioridade mais alta do que os lucros da Big Pharma.

A pandemia atual expande a discussão: a globalização capitalista agora parece biologicamente insustentável na ausência de uma infraestrutura de saúde pública verdadeiramente internacional. Mas essa infraestrutura nunca existirá até que os movimentos populares quebrem o poder da Big Pharma e da assistência médica com fins lucrativos.

Isso requer um desenho socialista independente para a sobrevivência humana que inclui – mas vai além – um Segundo “New Deal” – Novo Acordo. Desde os dias do Occupy, os progressistas colocaram com sucesso a luta contra a desigualdade de renda e riqueza na página um – uma grande conquista. Mas agora os socialistas devem dar o próximo passo e, com as indústrias de saúde e farmacêutica como alvos imediatos, defender a propriedade social e a democratização do poder econômico.

Também devemos fazer uma avaliação honesta de nossas fraquezas políticas e morais. A evolução para a esquerda por parte de uma nova geração e o retorno da palavra ‘socialismo’ ao discurso político nos alegra a todos, mas há um elemento perturbador do solipsismo (egoísmo, individualismo) nacional no movimento progressista que é simétrico ao novo nacionalismo. Falamos apenas sobre a classe trabalhadora norte-americana e a história radical dos Estados Unidos (talvez esquecendo que Eugene V. Debs era um internacionalista em sua essência).

Ao abordar a pandemia, os socialistas devem encontrar todas as ocasiões para lembrar aos outros a urgência da solidariedade internacional. Concretamente, precisamos agitar nossos amigos progressistas e seus ídolos políticos para exigir uma expansão maciça da produção de kits de teste, suprimentos de proteção e remédios visando a cura da doença para distribuição gratuita nos países pobres. Cabe a nós garantir que a garantia de assistência médica universal e de alta qualidade se torne política externa e doméstica.




* Mike Davis, 46, é professor do Departamento de Pensamento Criativo na Universidade da California, Riverside, es membro do Conselho Editorial do site Sin Permiso e da New Left Review. É autor de, entre outros, In Praise of Barbarians: Essays against Empire (Haymarket Books, 2008), Buda’s Wagon: A Brief History of the Car Bomb (Verso, 2007; traducción castellana de Jordi Mundó en la editorial El Viejo Topo, Barcelona, 2009) y junto con Justin Akers Chacón, Nadie Es Ilegal, Combatiendo el Racismo y la Violencia del Estado en la Frontera (Chicago, Illinois. Haymarket Books. 2009).