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MUNDIAL

Ecologia: que tipo de relação nós, os seres humanos, travamos com a natureza?

Por Gilson Dantas
Esquerda Diario
1º de agosto de 2018

Ecologia e Civilização I

É mais ou menos consensual a percepção de que está em marcha uma escalada da degradação ambiental. Não é necessário visitar os lixões, os rios, as zonas industriais e o entorno mais carente das grandes cidades para tomar consciência disso.

Essa crescente devastação e destruição ambiental tem, ao mesmo tempo, se expressado em uma maior consciência ecológica, por assim dizer.

O problema começa quando se pauta o debate sobre as causas dessa situação ambiental calamitosa. Tema que já foi alvo de várias notas no ED:
• Crise ambiental e Karl Marx;
• Marx escreveu sobre meio ambiente?;
• A insustentabilidade do "desenvolvimento sustentável".

Dificilmente o diagnóstico corrente da crise ambiental consegue atravessar a névoa das aparências.

Sensibilizados pela degradação promovida “pelo homem” [esse é o primeiro problema dos ambientalistas: não se dão conta de que estamos diante de uma humanidade fraturada], e partindo da denúncia da degradação do meio ambiente, desenvolvem uma argumentação que termina – mais ou menos conscientemente – entendendo que a civilização deve “voltar a ser parte” da natureza ou deve ser “mais ecológica”, deve pautar mais o meio ambiente, deve levar mais em conta o “custo ecológico” de cada empreendimento.

Em suma: nos tornemos uma civilização mais ambientalmente engajada. Uma sociedade mais verde. Uma indústria “mais ecológica”. Um mundo mais “ecologicamente correto”.

Todo esse discurso e grande parte das ideias que povoam os encontros ecológicos – incluindo, naturalmente, os de mais visibilidade como as cúpulas tipo Eco-92 e similares – terminam, na nossa perspectiva, e por conta desse diagnóstico difuso, conduzindo o problema ambiental, que é real e crítico, para um ponto cego. Para um beco sem saída estratégico.

Por que? Porque seu diagnóstico, partindo daquele primeiro pressuposto [“a humanidade, “o ser humano”], no final de contas, propõe que a civilização como ela é, assuma a defesa da natureza, adquira uma consciência ecológica, mude seu rumo atual que mergulhou em modo degradação ascendente.

Esse tipo de primeira aproximação do problema, no entanto, não é suficiente. E não apenas porque carece de diagnóstico adequado.

Ele pode até chegar a entender que somos parte da história natural da Terra, do meio ambiente na Terra, ou que precisamos cuidar do ambiente natural, da natureza “porque dela nós viemos” ou dela somos inseparáveis.

Mas estamos diante de um pensamento, de toda forma, recortado. Que deixa de fora um pressuposto ainda mais importante, ou o mais decisivo de todos se não queremos cair em nenhum beco sem saída em termos de mudança ambiental inclusive.

Senão vejamos. A espécie humana co-evoluiu com a natureza. Não evoluímos separados. Mas com o desenvolvimento tecnológico, isto é, com a evolução dos frutos do trabalho humano, da capacidade humana de produzir um excedente [em relação ao necessário para a sobrevivência básica], nós não seguimos um rumo linear historicamente falando, em termos sociológicos.

Não foi uma “humanidade” plena que floresceu. As guerras injustas e a iniquidade marcaram nossa história à medida em que ela foi se tornando história da luta de classes.

Como espécie, como civilização se queremos assim, sofremos – em certo ponto da nossa história antropológica - um processo de deformação cujo nome, curto e direto, é propriedade privada ou, mais especificamente, propriedade privada dos meios de produção.

Aqui estamos pensando na apropriação, por uns poucos privilegiados, dos meios de produção, inicialmente, da posse da terra para sua produção e usufruto particulares. E, em um mesmo movimento, a apropriação dos escravos, dos prisioneiros de guerra por exemplo, colocados a trabalhar para aquela minoria, para aquela classe dominante em estado nascente.

Esse elemento da realidade, da nossa “história natural”, é chave para a verdadeira compreensão da origem dos males ambientais, de todos eles.

A relação dos humanos primitivos com a natureza não fornecia todos os meios necessários em abundância, à medida em que se produzia um excedente do trabalho humano coletivo nos marcos de toda uma dinâmica já explicada por Engels no seu livro clássico sobre A origem da família, do Estado: nessa dinâmica é que se estabeleceu uma nova relação – para nada harmoniosa - entre os homens e a natureza.

Que passou a ser mediada pela posse dos meios de produção através de um pequeno grupo. Uma camada social que defendia sua posição privilegiada, monopolística, com forças armadas, forças policiais e prisões, enfim, com o Estado. Aliás, por isso mesmo, o Estado foi criado [em um ponto da nossa história em que a sociedade sofrera uma divisão, uma fratura].

Nessa medida, podemos dizer que no debate ecológico dos nossos dias, por mais que a devastação ambiental esteja escalando até seu ponto mais crítico, existe um dado que não pode ser deixado de fora, um ponto que não pode ser “recortado” do debate ecológico.

Até porque é ele mesmo quem nos leva a uma incontornável, radical e estratégica conclusão: a revolução da nossa relação com a natureza passa, em primeiro lugar ou acima de tudo, por uma revolução social, por uma revolução nas relações sociais. Que conduza à posse coletiva, sob controle coletivo da classe trabalhadora, dos meios de produção.

Não é nem preciso lembrar que estamos no terreno de Marx. Ao mesmo tempo em que continuamos no terreno ambientalista, só que menos superficialmente.
Um terreno que, queira-se ou não, sob pena do esvaziamento da melhor das discussões ecológicas, o movimento ecológico não vai poder continuar ignorando amplamente.



Por outro lado, essa mesma discussão também colocou – nos marcos da produção de toda riqueza, de todos os bens - o trabalho humano no centro do palco; o trabalho como o elemento transformador da natureza, a mediação pela qual os humanos se relacionam – para o bem ou para o mal – com a natureza “externa” [a nossa natureza externa].

Civilização é inseparável de trabalho, é construída, todos os dias e desde suas origens, pelo trabalho humano.

Portanto, é o trabalho que cumpre o papel material e cultural como mediação central.

E deve ser assim sob pena de se cair em outro ponto cego, inseparável daquele primeiro.

Ou de se tentar fazer de conta que o mundo vai poder seguir funcionando indefinidamente [sem crises colossais guerras mas também revoluções] dividido como está entre os que não trabalham porque detêm a posse dos meio de produção e os que trabalham para aquela classe opulenta e parasitária.

E trabalho significa, antes de mais nada, do ponto de vista histórico e antropológico, pensar naquilo que nos tornou humanos ou através de que meio nos humanizamos ou nos separamos – apenas relativamente – da natureza.

Através do trabalho nós nos formamos. Em um processo de co-evolução com o meio ambiente das nossas origens.

Um processo que Engels descreveu muito bem no seu clássico O papel do trabalho [ver referência ao final]. Um processo que hoje, através dos estudos mais modernos, passou a ser chamado de “co-evolução genético-cultural”, dinâmica eco-evolutiva ou “teoria da causação reciproca” [para alguns como Smee e Laland, a chamada “teoria sintética estendida da evolução” (Cerqueda, 2016)].

A citação antropológica a seguir, a nosso ver extremamente esclarecedora, mostra o conteúdo dessa ideia do trabalho como nosso elemento formador, elemento ontológico como diriam alguns filósofos:

“Nossos antepassados simiescos eram animais que viviam em manadas; evidentemente, não é possível buscar a origem do homem, o mais social dos anima animais, em antepassados imediatos que não vivessem congregados. Em face de cada novo progresso, o domínio sobre a natureza que tivera início com o desenvolvimento da mão, com o trabalho, ia ampliando os horizontes do homem, levando-o a descobrir constantemente nos objetos novas propriedades até então desconhecidas.

Por outro lado, o desenvolvimento do trabalho, ao multiplicar os casos de ajuda mútua e de atividade conjunta, e ao mostrar assim as vantagens dessa atividade conjunta para cada indivíduo, tinha que contribuir forçosamente para agrupar ainda mais os membros da sociedade. Em resumo, os homens chegaram a um ponto em que tiveram necessidade de dizer algo uns aos outros. A necessidade criou o órgão: a laringe pouco desenvolvida do macaco foi-se transformando, lenta mas firmemente, mediante modulações que produziam por sua vez modulações mais perfeitas” [...]

Foi necessário, seguramente, que transcorressem centenas de milhares de anos antes que a sociedade humana surgisse daquelas manadas de macacos que trepavam pelas arvores. Mas afinal, surgiu. E o que voltamos a encontrar como sinal distintivo entre a manada de macacos e a sociedade humana? Outra vez, o trabalho. [...]
O trabalho começa com a elaboração de instrumentos. E que representam os instrumentos mais antigos, a julgar pelos restos que nos chegaram dos homens pré-históricos, pelo gênero de vida dos povos mais antigos registrados pela história, assim como pelo dos selvagens atuais mais primitivos? São instrumentos de caça e de pesca, sendo os primeiros utilizados também como armas” [...]

O consumo de carne na alimentação significou dois novos avanços de importância decisiva: o uso do fogo e a domesticação dos animais [...] a domesticação de animais também proporcionou, com o leite e seus derivados, um novo alimento, que era pelo menos do mesmo valor que a carne quanto à composição. Assim esses dois elementos converteram-se diretamente para o homem em novos meios de emancipação” [...]

Graças à cooperação da mão, dos órgãos da linguagem e do cérebro, não somente em cada indivíduo, mas também na sociedade, os homens foram aprendendo a executar operações cada vez mais complexas, a propor-se a alcançar objetivos cada vez mais elevados. O próprio trabalho se diversificava e aperfeiçoava de geração em geração, estendendo-se cada vez a novas atividades. À caça e à pesca veio juntar-se a agricultura, e mais tarde a fiação e a tecelagem, a elaboração de metais, a olaria e a navegação”. [Engels, 2012, p. 22-28]

Portanto, no início era o trabalho [no início era a ação, diria Goethe].

O trabalho nos tornou o que somos como espécie. O trabalho nos criou, e nós criamos o trabalho. Uma dinâmica de mútua causalidade, uma dialética inseparável entre sujeito e objeto. E, em uma palavra: novamente inseparável da natureza, com a qual é travada a dialética relação de trabalho.

Só que – retomando o fio da nossa nota – isso não é suficiente para entender a escalada de destruição da “nossa própria casa”, da biosfera, que, por razões obvias, é a escalada da nossa destruição coletiva.

E sem que se tenha claro aquele desvio/deformação da história humana citado mais acima, não se explica a mudança na própria natureza do trabalho.
Isto é, daquilo que ele foi, no início, como elemento instituinte, digamos assim, dos homens, da emergente espécie humana.

O desvio: sendo o elemento através do qual se levantaram as diferentes civilizações ele, o trabalho, se tornou um mecanismo de opressão, uma vez que foi arrancado, que saiu fora do controle dos próprios produtores, inicialmente tornados escravos e hoje escravos assalariados.

Portanto, entender que o trabalho foi alienado, que a classe trabalhadora – aquela que levanta tudo que existe na civilização, tudo que é fruto do trabalho humano – não controla seu próprio trabalho e seu próprio destino é o outro elemento, seminal e fundante do problema ecológico atual.

O que nos leva diretamente à conclusão de que não é bom procedimento separar aquilo que, no real, está indissoluvelmente e dialeticamente ligado.

Ou, dizendo de outra forma, se o trabalho alienado, se a exploração do trabalho humano não integrar a agenda ambiental, não esperemos mudanças planetárias a não ser para pior.

Se o debate do “ecologicamente correto” não discutir e se posicionar pelo fim do trabalho alienado [e se agora levamos em conta o próprio poder tecnológico da guerra], temos que imaginar que a civilização e mesmo o nosso planeta poderão estar em risco catastrófico.

A retomada dos meios de produção – fábricas, grandes extensões de terras cultiváveis, grandes empresas de serviços – pela classe trabalhadora, com todos esses meios finalmente tornados bens públicos e controlados pelas grandes massas trabalhadoras é o único elemento, estrategicamente falando, que pode pôr fim à escalada da barbárie ecológica em marcha.

Sem este elemento, o mais rico e o mais qualificado dos debates ecológicos empalidece e se desvanece.

E também capitula à ideologia de que a civilização capitalista [onde a indústria, por exemplo, está fundada no lucro e concebe seus produtos fundada no lucro], possa, algum dia, apenas por obra de um governante “melhor”, vir a se tornar humanizada ou verde.

ENGELS, F, 2012. O papel do trabalho na evolução do homem. Brasília: Kiron.
ENGELS F, 1964. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1884/origem/index.htm Acessado em: 31/7/18.
CERQUEDA-GARCÌA, FALCÓN, Luisa, 2016. La construcción del nicho y el concepto de holobionte hacia la reestructuración de un paradigma in Revista Mexicana de Biodiversidad, 87 [2016] 239-241. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/294945076_La_construccion_del_nicho_y_el_concepto_de_holobionte_hacia_la_reestructuracion_de_un_paradigma Acessado em: 31/7/2018