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MUNDIAL

As ameaças de Trump à Coréia do Norte são um perigo real de guerra

Por Joseph Kishore
World Socialist
11 de novembro de 2017

Donald Trump continuou sua campanha de declarações incendiárias sobre a Coréia do Norte durante o fim de semana, ameaçando iniciar uma guerra que poderia desencadear uma catástrofe nuclear.

Na tarde de sábado, o presidente dos Estados Unidos tuitou que as administrações anteriores “conversaram com a Coréia do Norte durante 25 anos.” Isso “não funcionou”, ele escreveu, acrescentando: “Desculpe, mas apenas uma coisa funcionará!” Questionado mais tarde sobre o que quis dizer, Trump respondeu: “Você descobrirá em breve.”

Essas ameaças ocorreram três semanas após o discurso de Trump na Assembleia Geral das Nações Unidas em 19 de setembro, quando declarou que os EUA estavam “prontos, dispostos e capazes” de “destruir totalmente” a Coréia do Norte, um país de 25 milhões de pessoas. Quatro dias depois, Trump ameaçou assassinar o líder norte-coreano. Se o discurso do ministro das Relações Exteriores da Coréia do Norte na ONU “ecoar os pensamentos do Pequeno Homem-Foguete (Kim Jong-Un)”, escreveu Trump, “eles não estarão por perto por muito mais tempo!”

Na quinta-feira, Trump organizou um jantar na Casa Branca com líderes militares dos EUA, que tinha todas as características de uma reunião de um gabinete de guerra. Durante uma foto antes do jantar, Trump, cercado por homens em uniforme militar, comparou o momento com “a calma antes de uma tempestade”. Perguntado sobre qual tempestade se referia, Trump disse apenas: “Você descobrirá em breve.”

Uma vez interpretadas as palavras de Trump como uma expressão efetiva da política e dos planos do governo dos Estados Unidos, a conclusão inevitável é que o mundo está à beira do conflito militar mais devastador desde o início da Segunda Guerra Mundial. Se as falas de Trump estivessem alinhadas politicamente com a realidade, a situação atual seria oficialmente descrita como a de um “perigo iminente de guerra.”

O senador Republicano Bob Corker, do Tennessee, envolvido em um conflito político com Trump, advertiu que as ameaças imprudentes do presidente estão levando os Estados Unidos “em direção à Terceira Guerra Mundial.” Mas apesar das declarações de Corker no domingo, existe, na elite dominante e seus meios de comunicação, uma desconexão surpreendente entre a consciência e a realidade dos fatos. As declarações públicas que saem da Casa Branca são relatadas pela mídia como se não pudessem ter nenhuma consequência, fazendo parecer que Trump não pretende realizar o que diz. Para a mídia americana, as consequências de uma guerra seriam tão catastróficas a ponto de Trump só pode estar blefando.

Mas e se ele não estiver blefando? E se o governo da Coréia do Norte levar as ameaças do presidente americano, como deve, seriamente? Com Trump declarando publicamente que vai destruir a Coréia do Norte e que a hora do dia do juízo final está se aproximando, como o governo de Pyongyang interpretará ações militares americanas perto das fronteiras de seu país? Com apenas alguns minutos para tomar uma decisão, o regime norte-coreano interpretará a aproximação de um bombardeiro dos EUA em seu espaço aéreo como o início de um ataque em grande escala? Ele vai concluir que não tem mais escolha senão admitir o pior e iniciar uma ofensiva militar contra a Coréia do Sul? Será que ele disparará mísseis, como ameaçou, na direção do Japão, Guam, Austrália ou mesmo dos Estados Unidos?

Do ponto de vista puramente legal, a Coréia do Norte pode alegar, diante das ameaças de Trump, que suas ações seriam parte de um ato de autodefesa, uma resposta legítima a uma ameaça militar iminente.

Além dos cálculos de Pyongyang, é preciso admitir que os regimes em Pequim e Moscou também estão vendo os desdobramentos da tensão entre os EUA e a Coréia do Norte com crescente preocupação. Enquanto a mídia americana, como está acostumada, responde de forma complacente e sem entender as consequências das ameaças de Trump, o regime chinês não pode deixar de considerá-las com seriedade mortal. Trump é, afinal, o comandante-chefe do exército americano. Ele tem o poder - que o Congresso mostrou não ter interesse em desafiar - para ordenar ações militares.

O ataque dos EUA à Coréia do Norte representaria uma esmagadora ameaça para a China. Como em 1950, uma guerra contra a Coréia do Norte, mesmo que não envolvesse o uso de armas nucleares, levaria inevitavelmente a uma incursão americana pelo paralelo 38. A última vez que os militares dos EUA cruzaram a fronteira para a Coréia do Norte, os chineses responderam com um enorme contra-ataque militar. Não há motivos para acreditar que o atual regime de Pequim permaneça passivo diante de uma nova invasão da Coréia do Norte pelos EUA. A China consideraria a invasão americana como uma violação inaceitável de um arranjo geopolítico na península coreana que existe há quase 65 anos.

A reação de Pequim seria ainda influenciada pelas condições já tensas que existem na região asiática do Oceano Pacífico. Durante anos, os EUA tem aumentado sistematicamente sua força militar no Mar do Sul da China com o “Giro para a Ásia” iniciando pelo governo Obama. O objetivo desse movimento é cercar militarmente a China, que as principais seções da classe dominante consideram a principal concorrente dos interesses americanos. Durante o fim de semana, o principal concorrente regional da China, o Japão, declarou que apoia totalmente as ameaças de Trump contra a Coréia do Norte.

Assim, o início de uma guerra entre a Coréia do Norte e os Estados Unidos envolveria inevitavelmente a China, atraindo, por sua vez, toda a Ásia, bem como a Austrália, para um sangrento conflito. Também seria difícil que a Europa e a América Latina, que possuem seus próprios interesses na Ásia, ficassem de fora desse conflito.

Pouco foi visto na mídia americana sobre as consequências de uma guerra com a Coréia do Norte. Um artigo da Newsweek em Abril concluiu que uma guerra deixaria um milhão de pessoas mortas, considerando que não fossem utilizadas armas nucleares ou envolvesse outro país. Em um comentário no Los Angeles Times no mês passado, o brigadeiro-general aposentado da Força Aérea Rob Givens estimou que 20 mil sul-coreanos morreriam todos os dias em uma guerra na península, mesmo sem o uso de armas nucleares.

Se a guerra viesse a utilizar armas nucleares – como a administração Trump ameaçou - as consequências seriam catastróficas. Além de milhões ou dezenas de milhões de mortos, especialistas em clima alertaram em Agosto que mesmo uma guerra nuclear regional esfriaria o planeta em até 10˚C, potencialmente levando a um inverno nuclear global que acabaria com a produção agrícola.

Apesar de todas as evidências de que a guerra poderia se iniciar a qualquer momento, a mídia americana ainda se recusa a levar toda a tensão entre os EUA e a Coréia do Norte a sério.

O New York Times representou esse esforço da mídia para enganar a população em seu artigo de 6 de Outubro sobre as declarações de Trump diante dos generais, afirmando que ele tem uma “propensão para declarações provocativas” e “um prazer óbvio em deixar as pessoas em dúvida.” Considerando que o que estivesse em jogo fossem apenas as fofocas e as intrigas da Casa Branca, o Times escreveu que o “timing” da “calma antes da tempestade” era “particularmente tentador”.

“Mas é igualmente plausível”, concluiu o artigo, “que o Sr. Trump estava sendo meramente teatral, usando o encontro com os generais para provocar algum drama.”

Os esforços da mídia para minimizar o perigo de guerra são contrariados por sinais de sérias divisões da administração Trump. Há rumores de que o Secretário de Estado Rex Tillerson será forçado a deixar o cargo ou se demitirá, situação que se agravou depois das declarações de Trump no mês passado que minaram os esforços de Tillerson em retomar as negociações com o governo norte-coreano. A reunião de quinta-feira dos principais conselheiros da Casa Branca, decorada com uniformes militares, pode ter sido um esforço de Trump para garantir que ele tenha os militares do seu lado antes da guerra.

Essas divisões, no entanto, são de caráter tático. No limite, Trump fala não apenas por si mesmo, mas pela classe dominante dos EUA. As facções principais da oligarquia dominante estão unidas na estratégia fundamental de usar sua força militar para manter sua posição hegemônica no exterior.

Trump usa uma linguagem excepcionalmente bruta e bárbara para justificar a política externa americana. Mas ele não é o autor de sua estratégia hegemônica. Os Estados Unidos estão envolvidos em guerras quase ininterruptamente por mais de 25 anos, e esse fim de semana marcou os 16 anos da invasão do Afeganistão. O Pentágono está realizando ações militares em todo o mundo, geralmente sem que povo americano seja informado do envio de militares para operações no exterior. A morte em combate na semana passada de quatro soldados americanos no país africano do Níger foi conhecida com surpresa pelos americanos.

Não é demais repetir que uma guerra com a Coréia do Norte pode se iniciar a qualquer momento, pois essa é a realidade da situação. Ao invés de especular de maneira fútil se Trump está blefando, a tarefa mais importante hoje é construir um movimento poderoso, baseado na classe trabalhadora, contra a guerra. O próprio fato de o presidente americano sorrir e rir enquanto ameaça aniquilar milhões de vidas inocentes é prova suficiente de que o sistema político dos EUA está em estado terminal e capaz de cometer qualquer crime.