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MUNDIAL

E se as mulheres nao fizessem mais o trabalho de casa?

A invisibilidade e a desvalorização do trabalho doméstico gratuito ajuda o capitalismo a extrair maior valor dos trabalhadores. / EBC

Por Juliane Furno
31 de Outubro de 2017
Brasil de Fato

Historicamente, as mulheres têm sido responsabilizadas pelo trabalho doméstico, o que aqui chamo de trabalho de “reprodução social”. Esse trabalho envolve lavar, passar, cozinhar, limpar, mas também o cuidado com crianças, idosos e enfermos.

O que faz as mulheres serem as responsáveis por esse conjunto extenso e penoso de atividades (afora a reprodução da vida, que é um processo biológico) é a “naturalização”, de que essas são tarefas “de mulheres”. Sempre que questionei a minha mãe sobre o motivo de eu ser responsável por lavar a louça e o meu irmão não, ela dizia que esse era o trabalho das mulheres mas que – quando precisasse – o meu irmão trocaria lâmpadas.

A isso damos o nome de “divisão sexual do trabalho”, que acompanha nossa sociedade há muito tempo mas que foi resignificada pelo capitalismo. A lógica da divisão sexual do trabalho não é somente existir “trabalhos de homens” e “trabalhos de mulheres”, mas também de que os trabalhos de homens “valem” mais do que o trabalho das mulheres.

Um exemplo muito simples é o trabalho nos “serviços domésticos”. Essa ocupação é marcada por 93% de mulheres. E pasmem: elas ganham pouco mais de 80% do salário dos homens alocados também no trabalho doméstico.

Pelo IBGE, a categoria serviços domésticos engloba várias atividades: empregada doméstica, babá, cozinheira e também motorista particular e jardineiro. Dessa forma, provavelmente os homens são os motoristas e jardineiros e as mulheres as demais. No entanto, qual a razão do trabalho de um motorista “valer” mais do que o trabalho de uma cozinheira, que é realmente muito mais importante para a reprodução familiar? A resposta é a construção social, na qual “valorizamos” de diferentes formas distintas ocupações. O sexo e a cor de quem realiza estas atividades concorre mais para o seu “valor social” do que propriamente a sua qualificação.

Voltando ao início da prosa. E se as mulheres, que são as responsáveis majoritariamente pelo trabalho doméstico de forma gratuita nas suas casas, não o fizessem mais? Como o trabalhador iria para o trabalho não alimentado, com as roupas amassadas? E as crianças, quem as levaria para a escola? E os idosos, quem cuidaria deles?

Esse é apenas um exemplo para você pensar que toda a sociedade se estrutura a partir de um trabalho que você talvez nem ache que é trabalho!

Um dos principais motivos de desigualdade no mercado de trabalho (segregação ocupacional, diferenças salariais) é deveras influenciado pela não divisão das tarefas de reprodução entre os homens e mulheres nos seus lares.

E isso impacta a vida privada, mas também o sistema como um todo. Aceitando a ideia de Karl Marx de que o salário de um trabalhador é determinado pela quantidade necessária para que ele possa reproduzir a própria força de trabalho (ou seja, voltar a trabalhar no outro dia, descansado e alimentado) o trabalho gratuito das mulheres ajuda a rebaixar os salários do conjunto da classe. Simples, porque nem o Estado nem as empresas precisam adicionar no custo do salário o necessário para que esse trabalhador coma em restaurantes, pague uma creche para o seu filho e alguém para limpar a sua casa. Ou seja, essa invisibilidade e a desvalorização do trabalho doméstico gratuito ajuda o capitalismo a extrair maior valor dos trabalhadores.

Assim também com o Estado. Quando o governo Temer aprova uma medida como a “PEC do teto dos gastos”, ele mais uma vez sobrecarrega as mulheres, pois com a saúde em frangalhos, quem vai cuidar dos idosos e enfermos? Com recurso congelado para creche, quem vai deixar de trabalhar para cuidar dos filhos?

Pense nisso! Dividir e compartilhar o trabalho doméstico com as mulheres é uma obrigação! É um dos passos necessários para enfrentar uma das desigualdades mais estruturantes de nossa sociedade.

* Juliane Furno é doutoranda em Desenvolvimento Econômico na Unicamp e militante do Levante Popular da Juventude.

Edição: Daniela Stefano