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MUNDIAL

Modernização tecnológica com sociedades de inclusão?

Por Víctor Báez Mosqueira
11 de Janeiro de 2018
ALAI

História e contexto

Nós, os sindicatos de trabalhadores, temos muitas críticas, e muito consistentes, sobre o rumo que têm tomado nossas sociedades em relação à forma como vêm se dando os avanços tecnológicos. De fato, nosso mal-estar com o modo em que se combinam os avanços tecnológicos com o capitalismo vem de longe.

Quando na Inglaterra ao final do século 18 pôs-se em marcha o que ficou conhecido depois como a Primeira Revolução Industrial, os trabalhadores, desesperados ante a deterioração das suas condições de vida e do exercício de suas profissões, reagiram destruindo as máquinas, pois as viam como a causa de suas desgraças. Esse movimento não organizado, que se prolongou por anos no começo do século 19 e ficou conhecido como “luddismo” porque se atribuía a um mítico Ned Ludd ter sido o primeiro a romper os teares, foi superado pelos trabalhadores por meio de sua organização em sindicatos e sua luta reivindicativa. As máquinas não eram o problema, mas sim a forma de organizar a sociedade que usava as novas máquinas.

Quando terminou a Segunda Guerra Mundial, 150 anos depois, essa longa luta dos trabalhadores parecia ter domado o diabo que alimentava o avanço tecnológico com retrocessos sociais. Viveu-se, nos países desenvolvidos do Norte, um período singular conhecido como os “30 anos gloriosos” para os historiadores, o “fim dos ciclos econômicos” para os economistas ou os “estados de bem-estar social” para os sociólogos. Houve importantes avanços tecnológicos junto com grandes conquistas sociais para as maiorias: seguridade social pública, saúde pública, educação pública, aumentos reais do salário, mercados funcionando próximo ao pleno emprego... que constituíam parte da paisagem do capitalismo desenvolvido de então. No Sul, em alguns países latino-americanos, vivemos algo em paralelo com a industrialização por substituição de importações e com o avanço nas legislações social e trabalhista, sem nunca ter tido sociedades de bem-estar social para a maioria da população.

O problema foi colocado com a crise da década de 1970. Houve uma mudança no programa principal entre as classes dominantes do Norte e do Sul, conhecido como neoliberalismo, e, no caso da América Latina, no Consenso de Washington. A liberalização financeira fazia parte dessa agenda; algo que havia sido a causa da crise das economias antes da Segunda Guerra foi novamente implementado. Com isso, ocorreu a chamada “financeirização” da riqueza. Durante muitos anos, há mais riqueza em papéis nos mercados do que na realidade da economia. Mas se desenvolveram em nossas economias mecanismos por meio dos quais esses excessos de riqueza fictícia se apropriam da riqueza material, resultando em uma concentração monstruosa de riqueza e renda em todo o mundo e em cada país.

Ao mesmo tempo, houve um ataque a todos os mecanismos redistributivos do modelo social pós-Segunda Guerra Mundial. Os estados procuraram e conseguiram enfraquecer os sindicatos, o desemprego de longa duração reduziu a combatividade dos trabalhadores e as estratégias patronais buscaram dissolver os vínculos de fraternidade entre os trabalhadores, combateram a solidariedade social que está inscrita nas políticas públicas universais e construíram mitos reacionários em torno de uma suposta meritocracia, o empreendedorismo e a empregabilidade.

O contexto dessa luta foi a globalização das economias, o avanço da unificação dos mercados, que fez com que as estratégias das grandes empresas se tornassem planetárias, com a constituição de cadeias internacionais de produção e distribuição, de tal forma que os piores padrões sociais e trabalhistas em um país ou região pressionaram outros países ou regiões para baixo. As conquistas do bem-estar social foram sendo perdidas por golpes de mercadorias globais mais baratas do que aquelas que poderiam ser produzidas no mercado nacional. Assim, estabeleceram-se sociedades de um terço, com dois terços da população sobrando. Com um argumento importante: a culpa da exclusão social passou a ser dos excluídos; se criminalizavam não apenas os pobres, mas também se questionavam as políticas que poderiam reduzir a pobreza.

E tudo isso, a financeirização da economia e o triunfo das sociedades de um terço, ocorreu no contexto de uma nova revolução tecnológica, de mudanças de materiais, novas tecnologias de informação e comunicação, de novas fronteiras com biotecnologias e nanotecnologias. Ao contrário do pós-Segunda Guerra, agora, desde a década de 1990 até o presente, há uma espiral viciosa entre os avanços tecnológicos e a destruição do tecido social. Esse é o contexto estrutural da conjuntura política global e regional que estamos vivendo.

Os especialistas falam do surgimento de um novo paradigma tecnoeconômico: a era das tecnologias de informação e de comunicação (TIC). Na base está um produto que não é novo, os circuitos integrados, mas que nas últimas décadas experimentou um processo acelerado de redução de tamanho e preços, ao mesmo tempo em que aumentou a capacidade de processamento. Estima-se que entre 1970 e 2000 essa capacidade dobrou a cada 18 meses! E, juntamente com esse fenômeno, a informática e as telecomunicações experimentaram um processo de convergência sem precedentes. Difícil imaginar em 1980 que grandes computadores mainframe seriam substituídos dez anos depois por computadores pessoais cada vez menores. Quem teria pensado em 1990 que logo seriam todos interligados pela internet e, pouco tempo depois, um telefone celular pequeno iria substituir os PCs, enquanto uma nuvem informática transformou nossos pontos de acesso e processamento pessoais que cabem em um bolso em terminais de uma espécie de computador gigantesco, um mainframe planetário, do qual agora todos somos parte.

Provavelmente não haveria, por parte de empresas multinacionais, estratégias de “empresas de rede” com offshoring e cadeias globais de produção e distribuição sem essa estrutura tecnológica. Também não haveria o exuberante crescimento irracional das finanças sem que essa rede tivesse transformado o planeta em um único mercado financeiro unificado on-line.

As grandes multinacionais são as inevitáveis vencedoras da sociedade da informação? A sociedade, que tem o Estado como principal articulador dos benefícios sociais, está condenada ao fracasso e à extinção? É consequência da tecnologia que agora cada uma e cada um tenham de se virar sozinhos? Essas são ideias da força da ideologia neoconservadora, que tenta incutir que não há opções porque a tecnologia define a sociedade.

No entanto, junto com as novas TIC, outro mundo foi descoberto, muito diferente do da apropriação neoliberal e excludente da revolução tecnológica em curso. O empresário de informática que lidera as listas dos atuais milionários do mundo, Bill Gates, é o representante e o paladino dessa nova ordem. Seu gênio informático foi adicionado à pirataria (para roubar a tecnologia de outro gênio, Steve Jobs) com estratégias monopolísticas (para que o programa Windows seja o único a ser usado em PCs) e extorsivas (forçando o mundo a pagar por atualizações de programas frequentes para continuar a funcionar, bem como o uso de antivírus, que deve ser atualizado todos os dias).

Compare esse comportamento com o que conhecemos hoje, como software livre, aberto, antitruste, gratuito, tecnologicamente mais bem resolvido que o Windows, e que avança de forma colaborativa entre todos os usuários. Pois essa também é uma dimensão das TIC, a colaboração. Muitos dos avanços que foram explorados por todos resultaram do trabalho realizado por pessoas que não queriam patentear ou cobrar pelo seu desempenho. A navegação na internet é o resultado de ações desse tipo, ou seja, não comerciais, não monopolísticas, de livre acesso. É o que o escritor de profecias econômicas mais vendidas, Jeremy Rifkin, chama de “a sociedade de zero custo marginal”, que nos levaria a um cenário de “eclipse do capitalismo”, uma vez que haveria cada vez mais contradição entre a lógica do lucro empresarial e os avanços tecnológicos feitos sem sentido comercial, isto é, gratuitamente.

Ou seja, a sociedade das TIC tem duas almas. E uma delas é libertária, solidária, aberta, não mercantil. Por que não podemos promover essa dimensão das TIC a partir do progressismo político e sindical?

Tecnologia para viver melhor

As tecnologias não são neutras, mas tampouco têm significado unívoco. As ferramentas e a vida social mantêm, desde o início da humanidade, uma relação dialética e complexa. Com isso, queremos dizer que não podemos analisar os problemas causados pela atual revolução tecnológica sem analisar os problemas da forma atual de organização da nossa sociedade.

Os dramas que as nossas sociedades sofrem hoje, como a generalização do trabalho precário, quando não pura e simplesmente o desemprego, a deterioração dos sistemas de pensões, o aumento da pobreza nas sociedades, os níveis absurdos de desigualdade na distribuição da riqueza e da renda e as múltiplas formas de exclusão social, combinadas com a crise ambiental, cujos efeitos negativos tendem a golpear os setores mais vulneráveis da sociedade, não são resultado da revolução tecnológica, mas da contrarrevolução realizada pelo neoliberalismo desde a década de 1980.

Quando certas mudanças tecnológicas ocorrem nesse contexto social, obviamente elas reforçam seus malefícios. Mas elas não os provocam necessariamente. Além disso, a configuração de nossas sociedades atuais, como sociedades de um terço, como sociedades de exclusão, acaba por aprofundar os problemas econômicos. Existe um problema permanente de demanda insuficiente, que se resolve esporadicamente pela incorporação de novos contingentes aos mercados – como com a transição para o capitalismo globalizado na década de 1990 das ex-repúblicas socialistas da Europa e da Ásia – ou com a generalização do crédito sem lastro – resultando em bolhas especulativas como a que se viu em 2008 nos Estados Unidos. Mas se não há recuperação de renda, para a maioria da população, não há como resolver o problema da demanda efetiva na economia. Isso foi estabelecido a partir de Keynes na década de 1930.

É claro que as elites reacionárias sempre podem recorrer a uma demanda que não tem nada a ver com o bem-estar das pessoas: a indústria de armas e as necessidades geradas por guerras ou ameaças de guerra. Quem disse que o governo dos EUA era um refém político do complexo industrial-militar não foi o esquerdista Noam Chomsky, mas o presidente dos Estados Unidos, Eisenhower, um político republicano, no final de seu mandato em 1961:

“Nosso trabalho, recursos e meios de subsistência são tudo o que temos; esta é a própria estrutura da nossa sociedade. Nos conselhos de governo, devemos evitar a compra de influências injustificadas, desejadas ou não, pelo complexo industrial-militar. Existe o risco de um desenvolvimento desastroso de um poder usurpado e [esse risco] será mantido. Nunca devemos permitir que o peso desta conjunção ameace nossas liberdades ou processos democráticos” (Dwight D. Eisenhower em seu discurso de despedida para a nação, em 17 de janeiro de 1961).

Devemos recuperar a capacidade de fazer as mercadorias na sociedade.

Mas, para que isso seja possível, devemos alterar a lógica do funcionamento da economia, porque já estamos em uma economia de abundância material, com as doenças da exclusão social.

A política e a economia

Quando Bill Clinton ganhou a presidência sobre George Bush pai, que parecia ser imbatível na sua busca pela reeleição em 1992, diz-se que seu publicitário sintetizou o sentido da campanha vitoriosa assim: “É a economia, estúpido”. Com isso queria expressar o que as pessoas tinham como prioridade naquele momento.

Mas a economia e a política em geral estão muito imbricadas, entrelaçadas. Não é fácil separá-las. Ainda mais quando estamos em crise, como a que muitos países e regiões têm atravessado desde 2008, quando a globalização e financeirização encontraram seus limites. Então, os problemas foram expressos no terreno político de forma invertida: grandes contingentes da população em vários países atribuíram seus problemas sociais a “estrangeiros”, seja nos migrantes que vieram para tirar empregos ou aumentar a marginalidade social e violência urbana, seja nos trabalhadores de outros países concorrentes que têm vantagens espúrias de baixos padrões trabalhistas e sociais. É o tempo dos políticos demagogos, do Brexit no Reino Unido e de Trump nos Estados Unidos, um fenômeno que teve uma de suas primeiras manifestações na França já na década de 1990, com o surgimento da Frente Nacional de Le Pen, pai e filha, embora nunca tenham chegado a formar um governo lá.

Mas por que os demagogos têm tido tanto êxito? Porque as forças progressistas falharam.

Quando as direitas reacionárias impulsionaram a contrarrevolução neoliberal, não responderam com resistência suficiente, e quando voltaram a governar não apresentaram alternativas, mas remendos e adaptações à nova ordem de exclusão. Nunca houve esse terceiro caminho. Pior ainda, o que eles fizeram foi elaborar ideologias dessa adaptação, com elogios a uma suposta nova classe média cosmopolita e meritocrática, com o abandono da visão da solidariedade de classe, com a perda da identidade da classe trabalhadora.

As forças de esquerda podem queixar-se de que, em seu desespero, os trabalhadores e os setores pobres sigam os demagogos?

Devemos recuperar o terreno perdido, que se perdeu porque o progressismo se equivocou do sujeito político social. As maiorias continuam sendo trabalhadores, empregados ou desempregados, com trabalho permanente ou precário, com segurança social ou com vulnerabilidade, de nacionais ou imigrantes, de trabalhadores manuais ou profissionais, homens e mulheres.

É por isso que desde a Confederação Sindical de Trabalhadores/as das Américas (CSA), consideramos que um dos primeiros desafios para o movimento sindical é a autorreforma. Os sindicatos, que se enfraqueceram sob o ataque neoliberal, não poderão retomar a ofensiva nem criar uma resistência efetiva. Precisamos de um novo sindicalismo que una os valores históricos da classe trabalhadora e responda aos desafios que enfrenta no capitalismo como é hoje.

Mas o que é necessário não é suficiente. Só conseguiremos responder ao desafio político se tivermos um projeto alternativo. É por isso que na CSA trabalhamos a Plataforma de Desenvolvimento das Américas (Plada), que articula as mais sensíveis reivindicações da classe trabalhadora do continente com as políticas públicas necessárias para reorganizar as sociedades do ponto de vista da inclusão das maiorias, como é a bandeira do re-emergente trabalhismo que procura superar o fracassado new labor de Blair: “for the many, not the few”.

Somos netos de Keynes

O principal economista do século 20 era um liberal inglês que temia a revolução socialista e a barbárie nazista, John M. Keynes. Em 1930, deu uma palestra em Madri, Espanha, que logo foi publicada sob o título “As possibilidades econômicas de nossos netos”. Foi um exercício de futurologia com pés firmes na história do capitalismo inglês e no presente da economia que nosso autor sabia melhor do que qualquer outro de seu tempo.

Como o tempo de seus netos, Keynes projeta cem anos. Ou seja, nos encontramos a treze desse futuro imaginado. E o que vê o economista cuja teoria salvou o capitalismo ocidental da depressão econômica? Basicamente aponta para o que acabaria com o problema econômico fundamental, o da escassez, de modo que: “Turnos de três horas (diárias) ou semanas de quinze horas (de trabalho) podem eliminar o problema por um longo período de tempo. Porque três horas por dia são suficientes para satisfazer o velho Adão que há dentro de nós”.

Keynes não viveu o suficiente, nem mesmo para ver o que fizeram com o seu legado, que, pouco depois de sua morte em 1946, foi rapidamente metabolizado pela ciência econômica dominante em uma “síntese” que tirou seus pontos críticos e posteriormente foi totalmente descartado com o auge neoliberal.

Somos os netos de Keynes, que em vez de reduzir a jornada de trabalho e mudar a vida para realizar novas atividades criativas, como ele imaginou, estamos em sociedades nas quais se aumenta a jornada, as pessoas têm que ter dois empregos para sobreviver, às vezes mais, e a remuneração e os benefícios sociais são reduzidos.

Se queremos ter outro ciclo virtuoso de avanços tecnológicos com coesão social, como no pós-Segunda Guerra, teremos de combinar um novo pacto social com a revolução técnica. Não será reparando o velho neoliberalismo. Não será negociando para “perder menos”. Provavelmente não poderemos voltar para o antigo Estado de bem-estar. Terá de ser uma nova sociedade, uma grande sociedade capaz de englobar toda a população com direitos e benefícios iguais, e não a uns poucos. Estamos no limiar desse desafio. Não vamos deixar o povo nas mãos dos demagogos. Mas para isso, não podemos abandoná-lo também a sua (má) sorte. Temos de construir com as maiorias esse novo projeto, organizar a luta, passar à ofensiva.



Artigo publicado no site da Confederação Sindical de Trabalhadores/as das Américas (CSA), sob o título "¿Modernización tecnológica con sociedades de inclusión? ¡Pasar a la ofensiva! Contra el neoliberalismo y sus demagogos"



Tradução: Iuri Faria Codas



- Víctor Báez Mosqueira é secretário-geral da Confederação Sindical de Trabalhadores/as das Américas (CSA)